Luiz Alberto Machado
No outro dia seguimos pro mato real da mata virgem! Foi quando
a gente ouviu a história do pavão... Um cantador começou explicando que a mata
parecia um carnaval porque lá havia todo tido de coisas coloridas, passarinhos,
borboletas, vagalumes, apesar da escuridão, havia sempre uma fresta de luz. Andava
ele pelo mundo afora, quando, uma vez, apareceu um pavão vistoso, com seu peito
azul, sua cauda multicolorida, toda graça e beleza. Era uma ave mágica, com
certeza, até falava:
- Sou para protegê-lo das coisas maléficas e promover a
sua boa-sorte.
O pavão contou pra ele da vida, das coisas que enfrentou,
das lutas que perdeu. Mostrou a beleza da serra, os rios caudalosos, as matas
densas. Ensinou tudo: a vida e o que vem depois dela, como enfrentar serpentes,
como prever a chuva e a morte. Depois abriu-se em pleno espalhando sua cauda
colorida ricamente e dedicou uma de suas penas. Com o tempo constatei: as penas
dele não desbotam nem perdem o brilho, salvam moças de ficar pra vitalina,
decidem a sorte do encontrado. Esse o pavão com seu jeito todo elegante, sua
plumagem tão maravilhosa, seus passos firmes e lentos, empoleirado nos
parapeitos ou no galho de alta árvore.
Foi daí que o repentista criou o cordel do Romance do
Pavão Misterioso, que ninguém sabe direito se é de Melchíades ou de Camelo,
contando a história de Evangelista e Creusa.
Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse seu voar
Ai, se eu corresse
assim
Tantos céus assim
Muita história eu
tinha pra contar...
E juntou gente para ouvir tudo que contara. Era gente de Ponto
Alegre, Atoleiro, Barriguda, Bastões, Vila Araçá, Várzea Comprida, Várzea Suja
e Queimada Grande.
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