A Terra toda em festa
O céu era todo azul
O colorido se
desembesta
No toré do Xukuru!
A gente cruzou o rio Ipanema e, depois,
o Ipojuca. Olha ali os riachos: lá estavam o dos Pebas, Cana-Brava, do Boi, Santana, Gravatá,
Baraúnas, Liberal, Papagaio, do Belo e Salobro. Passaram os açudes Pão,
Ipaneminha, Carlos de Brito e Tambores, além das lagoas Grande, do Bicheiro, do
Jacu, do Algodão e do Anzol.
- Ué, a gente num tá atrás
do rio Una?
As águas seguiam para um lago, para um rio ou para o
mar...
- E o rio Una?
Igualmente: uma parte vai para um lago ou lagoa, outra
para outros rios e segue o seu curso natural até o mar.
Eis que nos lá longe uma grande fogueira. Era o sítio Pesqueiro e muita gente ao redor: de Cimbres, Mimoso,
Mutuca, Papagaio e Salobro; de Ipanema, Cajueiro, Beira Mar, Capim de Planta e
Cacimbão. É gente, hem? Chegamos então na serra do Ororubá. E lá já
tinha muito mais gente e chegando mais.
Eis que um pajé xukuru apareceu para todos os presentes
ao redor da imensa fogueira:
Um dia o Grande Espírito apareceu em meu sonho anunciando
um presente para todos. Era a oferta de Tupã para todos nós e se encontrava em
determinado lugar. Quando amanheceu reuni toda tribo e seguimos para o lugar
indicado. Lá chegando, o presente havia sumido. Reviramos todas as imediações e
nada de acharmos a dádiva. Resolvemos então esperar. Ali ficamos por horas. Aí
chegaram sapos, pássaros, onças, macacos, enfim, todos os animais, que
indagaram a razão pela qual ali estávamos reunidos. Explicamos por conta de uma
doação feita por Tupã que deveria estar aqui para servir a todos nós. Os
animais então ajudaram a encontrar a dádiva e, depois de muito revirar todas as
cercanias, encontraram um jacaré escondido no meio do matagal.
- Que estais fazendo aí, jacaré?
- Estou cochilando.
O macaco desconfiou. A onça astuta provocou:
- Ô, compadre jacaré, aí bestando e perdendo a festa!
- Que festa?
- Não sabe?
- Não.
- Está rolando a maior festa lá na beira do rio.
- É mesmo?
- É.
O jacaré alvoroçou-se e saiu às pressas, deixando um
rastro de fumaça. Foi então que ao chegar todos interrogaram:
- Cadê o presente de Tupã, jacaré?
- Sei disso não.
- Ele tem algo escondido, vamos futucá-lo pra saber o que
é!
E todos começaram a revirar o jacaré de ponta à cabeça e
logo descobriram o que ele escondia. Foi o cambaxirra-de-peito-branco quem
delatou: Ele está com o Fogo. Com a pressão das perguntas, o jacaré depôs:
- Foi, escondi pra mim. Vi cair do céu uma bola dourada,
pensei que fosse ouro e queria só pra mim.
Diante da descoberta alguns se amedrontaram com as
chamas, outras se assustaram com as brasas, mas, enfim, conseguiram pegá-lo,
cada qual com sua chama reluzente, mantendo-o aceso em gravetos e puderam leva
para casa. Ao término disso, todos celebraram o evento, quando, então, apareceu
o escritor Gilvan Lemos lendo em voz alta: Não só aqui em Santana da Serra,
no Brasil inteiro. A propósito, é verdade que as terras da mina foram tomadas
dos índios Xacuris, antigos habitantes do vale Iurubá? Depois do que ele
falou, todos se reuniram e invocaram a deusa
Tamaîn, a protetora dos Xujurús e de Cimbres! Ela apareceu toda radiante! Aí
começou o toré! A dança atravessou o tempo e ampliava o espaço com todos os
caciques e pajés que já se foram e ali ressuscitavam. Era a hora da bênção de
Tamain: ali o Una era o terceiro vértice da Trindade da Vida, juntamente com o
Ipanema e o Ipojuca!
“Viva
Tamaîn, Pai Tupã e o Cacique Xikão!!!”
Depois das celebrações, Pai Lula falou:
- Aqui é Pesqueira, a terra do doce e da renda
renascença. Agora vamos pra terra da amizade! Simbora!
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