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Sunday, September 27, 2026

A PEDRA FURADA DE VENTUROSA

 

 A PEDRA FURADA DE VENTUROSA

 

Luiz Alberto Machado

 

Assim a gente foi passando pelo Grotão, Ingazeira, Tara Velho... Chegamos na Pedra Furada e lá os indígenas se casavam pro amor duradouro. Coisas dali contavam assim...

 

Um dia o guerreiro caeté Tupá foi caçar na mata, quando avistou a bela tabajara Iaçá. As tribos eram inimigas e eles foram atraídos um pelo outro encontrando-se às escondidas. A bela Iaçá apaixonou-se por Tupá. Ali um grande amor nasceu. Quando Anhangá viu o casal apaixonou-se por Iaçá e, como queria tomá-la por sua noiva, delatou à mãe dela, propondo que, em troca de caça e pesca abundante pro resto da vida, deveria ela impedir o casamento da filha com o tal Tupá. Mas o casal apaixonado estava decidido: estavam prontos a se submeterem aos rituais para provarem que eram adultos. No dia do casamento eles estavam prontos para serem pintados pelos familiares, com adornos de sementes, penas e flores, aguardando o ancião para aplicação de uma resina colorida nos braços da noiva para a passagem rumo à nova vida. Contrariamente, Iaçá foi então proibida de ver Tupá, porque estava prometida ao Anhangá. A coisa estremeceu e as tribos entraram em pé de guerra. Triste e desesperada sem saída, pediu então a Anhangá que a deixasse ver, pela última vez, Tupá. Ela sabia que teria, depois do casamento, que morar com ele e nunca mais veria o seu amor. Pedido atendido sob uma condição: fazer um corte no braço dele para que o sangue pingado formasse um rastro para acompanhar sua caminhada. Era véspera do seu novo casamento e ela foi revê-lo para se despedir do seu amor. Ao cumprir a promessa de fazer um corte em seu braço, o sangue formou um arco vermelho no céu. Outros três arcos surgiram com o Sol – amarelo; o Céu – azul claro; e o Mar – azul escuro, estavam todos determinados a levar a moça de volta. Iaçá muito triste então desmaiou. Sua queda fez com que o arco amarelo se tornasse laranja. O azul tornou-se violeta. Restabelecendo os sentidos ela se encaminhou pro fundo da terra e negou-se a se casar com Anhangá: estava desolada na praia, banhada pelo mar e pelos raios do sol, formando o último arco na cor verde. Anhangá vendo aquilo revoltou-se e foi embora. Tupá então colocou-se no meio do conflito e estava pronto para morrer porque sua amada estava destinada ao terrível Anhangá. Foi então que o monstro apareceu de repente e tencionava devorar as duas tribos ao mesmo tempo. Tupá enfrentou o monstro e, ao vencê-lo poupou o monstro que, mais revoltado que antes, devolveu Iaçá e saiu destruindo o que encontrasse pela frente. Ao se encontrarem, Tupá e Iaçá, foram condenados à morte e, no ato da execução, o casal ascendeu aos céus, tornando-se ele, o Sol; e ela, a Lua – e as comunidades indígenas celebraram o casamento de ambos diante da Pedra Furada.

 

Ao final alguém gritou: - Pra casar, minha filha, basta passar por baixo da Pedra Furada e logo ela encontrará marido.

 

Alguém mais disse: - É lá que uma moura encantada se esconde e aparece serpente, a serpente de asas.

 

E outras contaram: era uma vez que um rapaz e uma moça de famílias muito ricas e resolveram se casar. Foi uma festança enorme com muito luxo e riqueza. Com o passar dos meses nasceu uma filhinha muito bonitinha e que era o centro da atenção de todos. Essa menininha foi crescendo e, tudo que ela queria, os pais lhe dava. Não podia ver um brinquedo do vizinho que logo ela esperneava pros pais comprar. Ela tinha de tudo e mais queria. Queria roupas, festas, tudo. E os pais lhe dava. Quando estava quase moça, os pais ficaram arruinados, empobreceram e morreram. Ela ficou sozinha, mas como era rica e bonita, nem ligou. Ela só não contava que o dinheiro acabaria e toda riqueza dela chegasse ao fim. Foi aí que quando se viu arruinada, logo teve uma ideia de viver da sua beleza, já que era muito bonita. E como muitos homens a cortejavam, ela usou do expediente de manipulá-los com todos os truques e trapaças. Ela simplesmente inventava disse-me-disse de que João odiava José, promovendo uma briga entre ambos. Doutra feita aconselhou José a tirar satisfações com Manoel, logo brigaram feio. Manoel foi induzido por ela a se desentender com Joaquim e fez deste inimigo do Serafim que brigou com o padre que arengou com o prefeito que se desentendeu com o juiz que foi às vias de fato com o delegado que se intrigou do bispo que denunciou o motorista que trocou tapas com João que odiava José. E com esses ardis, ela providenciava o seu sustento amealhando alguma fortuna para manutenção da sua vida suntuosa. O tempo passava e disso vivia, quando deu conta de que a vida fez dela envelhecer. Ah, aí, ao tomar pé da velhice, logo providenciou tantas escaramuças quanto pôde enredar entre as pessoas do seu relacionamento, tudo com o fito de financiar suas cirurgias plásticas, uma aparatosa rede de cosméticos para manter sua beldade e uma variedade de artigos para embelezamento geral. A vaidade, o egoísmo, a avareza e a soberba tomavam conta do seu ser, a ponto de torná-la irreconhecível de tanta produção na sua feitura. Mesmo com as intervenções cirúrgicas constantes, ao cabo de poucos dias logo a idade desarrumava suas feições e jeitos. E mais ela se amargurava, tornava-se cruel e amaldiçoava a vida e todas as pessoas. Um dia lá, totalmente tomada pela ira, blasfemou e atentou contra tudo e jurando se vingar de todos os moradores da cidade. Seu furor incontrolável, por fim, transformou-a numa serpente de asas temida. Qualquer desavisado que se aproximasse dos seus domínios, ela devorava jamais saciando sua fome e sede de atacar as pessoas para manter seu ser sempre robusto e formoso. Ainda hoje ela vive atormentando os passantes e quando a fome bate ela sai rondando as casas pra caçar ser vivente que lhe sirva de alimento.

 

Logo se soube de uma recomendação: para não ser comido pela serpente de asas é preciso a pessoa estar diligente de cumprir seus deveres e ter sempre um livro à mão, em leituras. É que ela é vulnerável a livros, coisa que a faz morrer. Quando ela avista um livro, ela foge temerosa. Por isso quando ela se defronta com uma pessoa digna portando um livro ou às leituras, logo ela se afasta para se esconder na Gruta do Serrote da Lapa.

 

E assim entrou de novo pela perna de pinto, saiu pela perna de pato, menino maluvido vai virar um carrapato.

 

Ao narrar essa horrorosa história era a hora da gente tudo dormir. Contudo, todos nós ficamos com olhos grandões e amedrontados sem conseguir sair do lugar. Nitolino chamou os outros para terem com Pai Lula. E, ao encontrá-lo, alegaram:

 

- Pai Lula, a gente tá com medo de dormir pra serpente de asas não pegar a gente -, disse Nitolino com a cara medrosa de todos os meninos. Pai Lula então foi até a biblioteca e entregou um livro para cada criança. E disse:

 

- Podem ir dormir que menino que ler livro a serpente de asas não ataca. Mas vocês precisam ser dignos, nunca mentir, nem enganar, nem ter inveja, nem fazer intriga, sempre fazer os deveres da escola, ouvir e praticar o que recomendam todos os mais velhos. Tendo cumprido esses deveres e com um livro na mão a serpente de asas nunca atacará vocês.

 

- Tá certo! -, disse Nitolino arregimentando os demais para o quarto de dormir.

 

Essa hestória foi contada por ribeirinhos do Opará - Velho Chico, dum lugar onde o povo ouvia o ronco cavernoso e ameaçador da Cova da Serpente no Serrote da Lapa. E também no morro do Votupoca, em Sete Barras, e que Jequi contou que se essa serpente tocar a pessoa, a vítima secará até definhar na morte.

 

O nome da serpente é Jequitiranabóia que também é nomeada em diversos lugares como jaquiranambóia, tirambóia, cobra-de-asa, cobra-do-ar, entre outras denominações. De vez em quando aparece diferente, como um pássaro azulado de asas colorida, bico curto e cinzento, olhar esverdeado. Outras vezes aparece como o Acauã caçando cobra, ou como Urutau... A hestória é sempre de uma linda moça que foi condenada pela maldade.

 

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