Luiz Alberto Machado
Assim a gente foi passando pelo Grotão, Ingazeira, Tara
Velho... Chegamos na Pedra Furada e lá os indígenas se casavam pro amor
duradouro. Coisas dali contavam assim...
Um dia o guerreiro caeté Tupá foi caçar na mata, quando
avistou a bela tabajara Iaçá. As tribos eram inimigas e eles foram atraídos um
pelo outro encontrando-se às escondidas. A bela Iaçá apaixonou-se por Tupá. Ali
um grande amor nasceu. Quando Anhangá viu o casal apaixonou-se por Iaçá e, como
queria tomá-la por sua noiva, delatou à mãe dela, propondo que, em troca de
caça e pesca abundante pro resto da vida, deveria ela impedir o casamento da
filha com o tal Tupá. Mas o casal apaixonado estava decidido: estavam prontos a
se submeterem aos rituais para provarem que eram adultos. No dia do casamento
eles estavam prontos para serem pintados pelos familiares, com adornos de
sementes, penas e flores, aguardando o ancião para aplicação de uma resina
colorida nos braços da noiva para a passagem rumo à nova vida. Contrariamente,
Iaçá foi então proibida de ver Tupá, porque estava prometida ao Anhangá. A
coisa estremeceu e as tribos entraram em pé de guerra. Triste e desesperada sem
saída, pediu então a Anhangá que a deixasse ver, pela última vez, Tupá. Ela
sabia que teria, depois do casamento, que morar com ele e nunca mais veria o
seu amor. Pedido atendido sob uma condição: fazer um corte no braço dele para
que o sangue pingado formasse um rastro para acompanhar sua caminhada. Era
véspera do seu novo casamento e ela foi revê-lo para se despedir do seu amor.
Ao cumprir a promessa de fazer um corte em seu braço, o sangue formou um arco
vermelho no céu. Outros três arcos surgiram com o Sol – amarelo; o Céu – azul
claro; e o Mar – azul escuro, estavam todos determinados a levar a moça de
volta. Iaçá muito triste então desmaiou. Sua queda fez com que o arco amarelo
se tornasse laranja. O azul tornou-se violeta. Restabelecendo os sentidos ela
se encaminhou pro fundo da terra e negou-se a se casar com Anhangá: estava
desolada na praia, banhada pelo mar e pelos raios do sol, formando o último
arco na cor verde. Anhangá vendo aquilo revoltou-se e foi embora. Tupá então
colocou-se no meio do conflito e estava pronto para morrer porque sua amada
estava destinada ao terrível Anhangá. Foi então que o monstro apareceu de
repente e tencionava devorar as duas tribos ao mesmo tempo. Tupá enfrentou o
monstro e, ao vencê-lo poupou o monstro que, mais revoltado que antes, devolveu
Iaçá e saiu destruindo o que encontrasse pela frente. Ao se encontrarem, Tupá e
Iaçá, foram condenados à morte e, no ato da execução, o casal ascendeu aos
céus, tornando-se ele, o Sol; e ela, a Lua – e as comunidades indígenas
celebraram o casamento de ambos diante da Pedra Furada.
Ao final alguém gritou: - Pra casar, minha filha, basta
passar por baixo da Pedra Furada e logo ela encontrará marido.
Alguém mais disse: - É lá que uma moura encantada se
esconde e aparece serpente, a serpente de asas.
E outras contaram: era uma vez que um rapaz e uma moça de famílias muito ricas e resolveram
se casar. Foi uma festança enorme com muito luxo e riqueza. Com o passar dos
meses nasceu uma filhinha muito bonitinha e que era o centro da atenção de
todos. Essa menininha foi crescendo e, tudo que ela queria, os pais lhe dava.
Não podia ver um brinquedo do vizinho que logo ela esperneava pros pais
comprar. Ela tinha de tudo e mais queria. Queria roupas, festas, tudo. E os
pais lhe dava. Quando estava quase moça, os pais ficaram arruinados,
empobreceram e morreram. Ela ficou sozinha, mas como era rica e bonita, nem
ligou. Ela só não contava que o dinheiro acabaria e toda riqueza dela chegasse
ao fim. Foi aí que quando se viu arruinada, logo teve uma ideia de viver da sua
beleza, já que era muito bonita. E como muitos homens a cortejavam, ela usou do
expediente de manipulá-los com todos os truques e trapaças. Ela simplesmente
inventava disse-me-disse de que João odiava José, promovendo uma briga entre
ambos. Doutra feita aconselhou José a tirar satisfações com Manoel, logo
brigaram feio. Manoel foi induzido por ela a se desentender com Joaquim e fez
deste inimigo do Serafim que brigou com o padre que arengou com o prefeito que
se desentendeu com o juiz que foi às vias de fato com o delegado que se
intrigou do bispo que denunciou o motorista que trocou tapas com João que
odiava José. E com esses ardis, ela providenciava o seu sustento amealhando
alguma fortuna para manutenção da sua vida suntuosa. O tempo passava e disso
vivia, quando deu conta de que a vida fez dela envelhecer. Ah, aí, ao tomar pé
da velhice, logo providenciou tantas escaramuças quanto pôde enredar entre as
pessoas do seu relacionamento, tudo com o fito de financiar suas cirurgias
plásticas, uma aparatosa rede de cosméticos para manter sua beldade e uma
variedade de artigos para embelezamento geral. A vaidade, o egoísmo, a avareza
e a soberba tomavam conta do seu ser, a ponto de torná-la irreconhecível de
tanta produção na sua feitura. Mesmo com as intervenções cirúrgicas constantes,
ao cabo de poucos dias logo a idade desarrumava suas feições e jeitos. E mais
ela se amargurava, tornava-se cruel e amaldiçoava a vida e todas as pessoas. Um
dia lá, totalmente tomada pela ira, blasfemou e atentou contra tudo e jurando
se vingar de todos os moradores da cidade. Seu furor incontrolável, por fim,
transformou-a numa serpente de asas temida. Qualquer desavisado que se
aproximasse dos seus domínios, ela devorava jamais saciando sua fome e sede de
atacar as pessoas para manter seu ser sempre robusto e formoso. Ainda hoje ela
vive atormentando os passantes e quando a fome bate ela sai rondando as casas
pra caçar ser vivente que lhe sirva de alimento.
Logo se soube de uma recomendação: para não ser comido pela serpente de
asas é preciso a pessoa estar diligente de cumprir seus deveres e ter sempre um
livro à mão, em leituras. É que ela é vulnerável a livros, coisa que a faz
morrer. Quando ela avista um livro, ela foge temerosa. Por isso quando ela se
defronta com uma pessoa digna portando um livro ou às leituras, logo ela se
afasta para se esconder na Gruta do Serrote da Lapa.
E assim entrou de novo pela perna de pinto, saiu
pela perna de pato, menino maluvido vai virar um carrapato.
Ao narrar essa horrorosa história era a hora da
gente tudo dormir. Contudo, todos nós ficamos com olhos grandões e amedrontados
sem conseguir sair do lugar. Nitolino chamou os outros para terem com Pai Lula.
E, ao encontrá-lo, alegaram:
- Pai Lula, a gente tá com medo de dormir pra
serpente de asas não pegar a gente -, disse Nitolino com a cara medrosa de
todos os meninos. Pai Lula então foi até a biblioteca e entregou um livro para
cada criança. E disse:
- Podem ir dormir que menino que ler livro a
serpente de asas não ataca. Mas vocês precisam ser dignos, nunca mentir, nem
enganar, nem ter inveja, nem fazer intriga, sempre fazer os deveres da escola,
ouvir e praticar o que recomendam todos os mais velhos. Tendo cumprido esses
deveres e com um livro na mão a serpente de asas nunca atacará vocês.
- Tá certo! -, disse Nitolino arregimentando os
demais para o quarto de dormir.
Essa hestória foi contada por ribeirinhos do Opará
- Velho Chico, dum lugar onde o povo ouvia o ronco cavernoso e ameaçador da
Cova da Serpente no Serrote da Lapa. E também no morro do Votupoca, em Sete
Barras, e que Jequi contou que se essa serpente tocar a pessoa, a vítima secará
até definhar na morte.
O nome da serpente é Jequitiranabóia que também é
nomeada em diversos lugares como jaquiranambóia, tirambóia, cobra-de-asa,
cobra-do-ar, entre outras denominações. De vez em quando aparece diferente, como um pássaro
azulado de asas colorida, bico curto e cinzento, olhar esverdeado. Outras vezes
aparece como o Acauã caçando cobra, ou como Urutau... A hestória é sempre de
uma linda moça que foi condenada pela maldade.
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