Luiz Alberto Machado
Quati dorme com o focinho na cintura
Atrepado num pé de pau.
No lual, o Quatimundéu, velho e
solitário,
Vai ao léu desgarrado duma dança de
roda.
Chama o quati de bando e o quati-mirim
que é fuçador
Suas garras e presas afiadas, todos
com o focinho no buraco.
Foi o que versejou Pai Lula durante a viagem. Ouvimos lá longe:
Cáa-poera, capoeira!
Estão ouvindo? Sim. Chegamos na Serra do Quati. Lá à
nossa espera estava firme o Pai Quati-de-bando. Fez uma reverência especial ao
Pai Lula. Que é que há? Queremos saber o que é Valuna! Ah, tá. Então ele contou
que quando a Terra nasceu, foi uma festa tão grande que os céus choraram de
tanta emoção. Choraram de alegria e das lágrimas surgiram os lagos, rios, mares
e oceanos. Durante a festa, o Sol se apaixonou pela Lua e queriam namorar, mas
não podiam: ao se juntarem o Sol queimava tudo e as lágrimas da Lua inundavam
todos os lugares. A Lua então ficou muito triste vagando chorosa. Em cada ponto
desolada ela pranteava sem parar. Depois de muito vagar, um dia lá, ela se
arranchou na serra da Boa Vista e muito tristonha chorava e suas lágrimas
desceram abaixo e delas nasceu o rio Una.
Aí cicerone saudou a todos e, de forma cerimoniosa,
passou às mãos de Pai Lula o vergalho do Quatimundéu e, depois, entregou-lhe o
mapa com uma inscrição enorme e colorida: VALUNA.
Pai Lula sorriu dizendo:
- Quem tem o vergalho do quati tem sorte!
Depois o recepcionista apontou pra longe:
- Pronto, ali o rio é seu, una-se!
E com uma recomendação:
- Primeiro passo: chegando lá espere o vento com a bênção
para a Trindade da Vida dos Xukurus!
Assim fizemos. Dali saímos e, no meio do caminho, Pai
Lula brincou:
- Se eu não fosse ligeiro o quati me lambia. Vambora!
Héhéhé! E ensaiou uma cantiga inventada na hora!
Canoa rema, vamos remar,
Remando e vivendo, viver é remar...
Depois que a gente marchou a cantoria, à certa altura da
travessia paramos embaixo de uma imensa sombra de um frondoso cajueiro. Foi
então que Pai Lula começou a contar:
- Quando anoitecia e todos iam dormir, as coisas daqui desapareciam... e outras reapareciam
no lugar delas, também. Desapareciam facas, apareciam esteiras. Sumiam
ferramentas, surgiam vasos. Perdia-se uma manta de charque, ganhava-se um
balaio artesanal. O que estava acontecendo, não havia quem conseguisse
explicar: era um caso muito estranho. Aí os moradores reunidos deliberaram:
tinham que pegar esse estranho ladrão, aquele que trocava as coisas na calada
da noite. Procurou-se pelos quatro cantos da localidade, nada de descobrir.
Matas, cavernas, chãs, touceiras, grutas, tudo revirado e nenhum sinal. Os
escambos aconteciam todos os dias e asseveraram: Tem coisa ruim por trás disso.
Tem é magia, isso sim. Feitiçaria da braba. Todos eram muito supersticiosos e
começaram a fazer novenas e súplicas benzedoras todas as noites para se
protegerem do que poderia ser aquilo. Dias após passaram a se livrar de tudo
que o suposto maligno deixava no lugar. Ninguém tocava no assunto, faziam de
conta que nada mais acontecia. O tempo foi passando e as coisas se mantinham do
mesmo jeito. Foram perdendo o medo e passaram até a deixar coisas pelo caminho:
roupas, cordas, bregueços, brebotes, tudo espalhado pelo chão. E assim foram se
ajeitando. As coisas simplesmente aconteciam. Aí, um dia lá, uma caravana de
caçadores seguia pela mata e, no meio das árvores, num local que não havia
moradia, uma fumaça branca amedrontou a todos: ela invadia todos os lugares ao
redor e subia céu afora. Empunharam as armas e seguiram a fumaça: um pé lá,
outro cá. Atentos, cautelosos. Aí avistaram um vulto enorme aboletado à beira
do fogo. Mais precavidos se prepararam para tirar aquilo a limpo. Ao avançarem
o vulto revidou, escapulindo. Saíram ao encalço do fugitivo, cercaram-no. Foi
preciso muita força. Era o Pai Quati, o quatimundéu, verdadeiramente
responsável pelos achados e perdidos. Hummmmmmmm... E aí? Entrou pela perna de
pinto e saiu pela perna de pato!


