Era manhã quase dia
O galo anunciava o Sol
A gente então logo via
As terras de Sanharó.
Pai Lula assim disse:
- É aqui Jenipapo, terra de Ararobá, Ororubá. Lugar de
abelha zangada.
Paramos diante de uma imensa colmeia e a abelha-rainha
veio nos receber: Permissão concedida, tenham boa viagem! Seguimos ... Fomos
dar no folguedo: a quadrilha Rastapé na Praça da Vaca! Que espetáculo bonito!
A vaca amarela pulou a janela
Quem falar primeiro vai cuidar dela!
Vaca amarela babou na panela
Quem falar primeiro come toda baba
dela!
Ao final da festa rumamos pro sítio Barriguda. Lá havia
uma celebração com Samba de Coco, verdadeiro carnaval. Fomos saudados com tiros
de bacamarte! Logo apareceu Sancoquinho no maior
festejo. É que emendaram com a Festa do Leite, comandada, de um lado, pelo
Manuel Fernandes Bezerra; e, do outro, pelo
Joaquim Francisco de Assis Aquino. Aqui tem maestro que só!
- Vamos tomar leite que é
dia de festa!
Foi lá que ouvimos a hestória de quem
conta um conto aumenta um ponto, assim: era uma vez uma moça muito bonita,
festeira, prestativa, alegre, porte esbelto com sua pele clara, uma tiara nos
cabelos e olhos vivos bem pretos, batom vermelho nos lábios, roupas justas e
formas generosas. Era muito meiga com sua beleza celestial sobre os saltos
altos, chamando atenção de todos. Trazia no dedo anular um anel de cristal e se
vestia com esmero e elegância. Ela ajudava aos doentes, acompanhava os
enfermos, velava pelos moribundos, era, de fato, muito bondosa. Nos festejos
cívicos vestia-se da bandeira do Brasil, com uma saia de listas verdamarelas,
brancazuis, como também durante as procissões ou romarias. Celebrava seu
aniversário distribuindo licores aos que foram e os que não puderam felicitá-la
no dia festa, servido numa bandeja que prosseguia na distribuição pelo dia
seguinte aos faltantes. Como era muito adorada pelos homens da cidade, ela
sempre recusou intimidades aos pretendentes. Porém, um dia enamorou-se de um
médico e, com ele, viveu intenso amor. Era ela Penélope, ele Odisseu. Era um
idílio de causar inveja em todos os moradores do lugar. Assim noivaram e, na
véspera do casamento, seu marido adoecera gravemente. Mesmo à beira da morte
ela com ele se casou. Vestida de noiva permaneceu e, dias depois, seu amado
morreu. Ela então recolheu todos os pertences do amado e pendurou na sala de
sua casa, junto ao seu vestido de noiva. Viúva manteve-se e, sempre que
solicitado o seu estado civil, ela dizia: Casada! E assim repetia: − A senhora é casada? Sou. E cadê seu
marido? Está trabalhando. Doutras vezes respondia: − Meu marido está viajando.
Seguiu sua vida triste, mantendo-se às procissões e romarias sempre vestida de
noiva. Via-se claramente que ela emagrecia, muito empalidecera e passou a usar
de óculos escuros. No dia de finados ela pernoitava no cemitério, junto ao
túmulo do marido, vestida de noiva. Viveu assim muitos anos a viúva intocável,
até falecer e ser enterrada ao lado do marido. O sonho dela era de quando
morresse finalmente reencontrasse seu marido no céu e consumasse as suas
núpcias. Muitos afirmavam vê-la perambulando à noite pelas ruas da cidade.
Quando não, ainda hoje, muitos a veem ao lado do leito de qualquer pessoa
enferma nas casas e hospitais, ou mesmo seguindo as procissões e romarias. A
viúva virgem vestida de noiva segue para sempre.
E pra quebrar o clima, logo ouviu-se:
- Essa a terra do leite e
do queijo!
Entre abraços e gentilezas de
despedidas, renovados convites:
Venham em maio, pra cavalgada das
amazonas!
Também em junho, pra festa do curral!
Ou pra festa do Peba!
Ou senão, no fim de dezembro pra festa
do beco!
E lá ia o rio Ipojuca e passamos pelo distrito de
Mulungu, quando ouvi Pai Lula dizer:
- Lembro & vivo... Vambora!

