BRINCARTE

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Saturday, April 30, 2022

A LITERATURA DE CLARICE LISPECTOR

 

 

“NÃO ESMAGUEM AS PALAVRAS NAS ENTRELINHAS”: A OBRA LITERÁRIA DE CLARICE LISPECTOR PARA A INFÂNCIA – Por Graça Lins. – RESUMO: A obra de Clarice Lispector é fonte inesgotável de pesquisas, estudos, interpretações, artigos, teses e inúmeros eventos acadêmicos. Trata-se de uma escritora que sempre esteve no palco de abordagens das grandes linhas do conhecimento, com especialidade, a Literatura e a Psicanálise. Clarice envolve o leitor com o mesmo encantamento diante das múltiplas leituras que são realizadas sobre a sua obra, quer sejam dirigidas ao público infantil ou adulto. Este trabalho surgiu, inicialmente, de uma inquietação sobre o fato de perceber que sua obra raramente é indicada pelas escolas privadas para seus alunos, e nem sempre são adquiridos pelos grandes programas governamentais de compra de livros encaminhados às escolas públicas. Seria desconhecimento de sua obra dedicada ao público infantil? Ou ausência de práticas de leitura literária em oficinas e mediação de leitura com crianças e adolescentes? As abordagens que definimos buscam, portanto, indicar caminhos para essas práticas com foco na “escuta” do texto e do “leitor”, assim como a própria Clarice nos sugere nas obras que analisamos. Para o presente trabalho foram selecionadas duas obras: O mistério do coelho pensante e Quase de verdade para exemplificarem os estudos sobre o conceito de “escuta do texto”, através de duas abordagens que iluminam a leitura dos referidos livros: As considerações de Cecília Bajour (2012), em seu livro Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura, na perspectiva da leitura literária. No segundo momento, discutiremos o conceito de “escuta do Texto”, pelo viéis de uma leitura psicanalítica a partir dos estudos de Danny A. Kanaan (2002), especialmente em seu livro Escuta e subjetivação: a escritura de pertencimento de Clarice Lispector. Palavras-chave: Literatura. Psicanálise. Mediação de Leitura. Clarice Lispector. INTRODUÇÃO – Falava em língua de ave e de criança / Sentia mais prazer de brincar com as palavras / do que pensar com elas. [...] Aprendera [...] que a palavra tem que chegar ao grau de brinquedo. / Poeminha em língua de brincar... Manoel de Barros. Para iniciar este trabalho instigante e prazeroso sobre a escritora Clarice Lispector, definimos como tema a “escuta do texto”, de duas narrativas ao público infantil: O mistério do coelho pensante (1967) e Quase de verdade (1078). Além das obras citadas, a autora também escreveu para o mesmo público: A mulher que matou os peixes (1969), A vida íntima de Laura (1973) e Como nascem as estrelas (reconto de doze lendas brasileiras), publicado em 1987. A perspectiva de um olhar para Clarice, enquanto mediadora da leitura de seus próprios textos, conduziu-nos a uma intersecção entre o leitor infantil e uma Clarice que conta histórias, com exato domínio da linguagem e do universo da criança. Este trabalho busca mostrar que as marcas linguísticas da oralidade, expressões denotativas do universo da criança, recursos estilísticos no uso de onomatopeias, sugestões de brincadeiras e adivinhas, informalidade nas falas dos diálogos, conteúdos que estão presentes em suas obras de Literatura Infantil, configuram-se como estratégias utilizadas pela autora com a nítida intenção de aproximar o leitor infantil de sua obra, enquanto mediadora de leitura. A leitura analítica dos livros Quase de verdade e O mistério do coelho pensante serve de suporte para confirmar, através da análise, que o discurso de Clarice aproxima-se da figura de uma “contadora de histórias”, ao utilizar marcas linguísticas da oralidade e se colocar inteiramente à vontade para criar e recriar ideias ao longo das narrativas, convidando o leitora para partilhar das entrelinhas, numa interlocução rica com um imaginário fecundo e brincante. Para consolidar essas observações, buscamos aporte teórico de Cecília Bajour (2012) e Danny Kanann (2002) no que se refere à “escuta do texto”, uma vez que a mediação da leitura é visível no convite que a autora faz à criança para compartilhar, apreciar e identificar nas entrelinhas o desenvolvimento do enredo das histórias. LIVROS INFANTIS DE CLARICE: UMA “LEGIÃO ESTRANGEIRA” NO PERCURSO DA LITERATURA INFANTOJUVENIL BRASILEIRA – Os livros de Clarice Lispector para a infância surgem quando um dos seus filhos lhe pede que escreva um livro de história. Posteriormente, ela comenta, em entrevista, que “O adulto é triste e solitário. A criança tem a fantasia solta”. E complementava que era bem mais fácil escrever para crianças do que para adultos, pois teria que se comunicar com o que havia de mais secreto em si mesma. Nas décadas de 20 e 40, as obras infantis privilegiavam o espaço rural e, a exemplo de Lobato, outros autores também contextualizaram suas obras no espaço do campo, como é o caso de Viriato Correia em Cazuza, José Lins do Rego em Histórias da velha Totônia e Graciliano Ramos em Histórias de Alexandre. Sabe-se que, a obra literária de Clarice Lispector inquietou a crítica literária desde a década de 40, contudo só a partir da década de 60 a autora dedica-se ao público infantil. Na década de 50, as obras passam a projetar o meio rural, como como espaço de visita e não da ação das protagonistas, uma vez que se pretendia mostrar um Brasil urbano e progressista, a exemplo de A ilha perdida, de Maria José Dupré, que ainda hoje consta nas listas de indicação das escolas. Entretanto, esse ideário progressista encobre a presença estrangeira, sobretudo norte-americana, que reproduz uma ideologia comprometida com a camada dominante. Ainda nessa década, ocorrem mudanças na vida cultural, reivindicações de uma arte engajada que representasse os problemas sociais, mas a Literatura Infantil ainda não se envolve com essas questões, nem mesmo com a recuperação de uma linguagem literária mais acessível ao público infantil. Foi no contexto dos anos 60 que surgiram as primeiras obras de Clarice dedicadas ao público infantil. Nesse período, o Estado investe numa política cultural que valoriza autores e obras, ou seja, a instauração do capitalismo moderno: patrocínio, coedições, e destinação de verbas para as publicações. Quando houve a instauração de um governo estabelecido pelo golpe de 64 com seu projeto político e econômico, ocorreu a modernização da indústria e então, a atualização do livro, com boa apresentação física, incentivo à propaganda, distribuição maciça de livros, mas, em contrapartida, a Literatura sofre num contexto de censura política e ideológica intensa. Assim, há uma intervenção no processo criativo do escritor, e em nome de uma destinação pedagógica exigia-se glossários e inclusão de perguntas fechadas em fichas de leitura. A compra de livros era patrocinada pelo Estado, mas a leitura era um recurso de inculcação de valores, comportamentos e atitudes. Daí a literatura infantil era usada como “porta-voz”. Nesse contexto, Clarice publica seus primeiros livros dedicados à infância, com a intenção de que sejam lidos como fonte de fruição e prazer, e não uma literatura utilitária e pedagogizante. Em suas obras para a infância há uma preocupação com o lúdico, o humor, o poético, a estética e, ao tematizar as questões pessoais dos personagens, geralmente protagonistas animais domésticos que estimulam pequenos leitoras à reflexão e à crítica. Só nas próximas décadas, autores como Ruth Rocha, Ana Maria Machado e João Carlos Marinho ousam discutir em suas obras o abuso do poder totalitário a exemplo da série O reizinho mandão, O rei que não sabia de nada, o que os olhos não veem (Ruth Rocha), História meio ao contrário (Ana Maria Machado), O gênio do crime (João Carlos Marinho), entre outros (abordando) que abordam a mesma temática. DOIS PEQUENOS-GRANDES PERSONAGENS: UM COELHO E UM CACHORRO – Em seus livros dedicados ao leitor infantil é visível uma Clarice voltada aos interesses da criança, onde não há espaço para a angústia, a introspecção e a verborragia incontrolada, tão presentes em sua narrativa para o adulto. Assim, distancia-se de seus propósitos estilísticos presentes nas narrativas dirigidas a esse público, quando se apresente como um sujeito sem linguagem e incapaz de tratar sobre o seu modo de ser, enigmática e impenetrável. Em obras como Água viva, A cidade situada e, sobretudo, em A paixão segundo GH, a estética clariceana expressa uma forma de incomunicabilidade da sua intimidade, sentimento presente na ação dos personagens que confirmam essa falta de superação e comportam-se como se soubessem demais sobre a vida e ao mesmo tempo fossem incapazes de traduzia a angústia de viver. E, dessa forma, representa ficcionalmente a falta de linguagem e a linguagem da falta, a exemplo do fragmento de A paixão segundo GH: estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi [...] Não confio no que me aconteceu. A isso prefiro chamar desorganização, pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro (LISPECTOR, 2009, p. 9). Em sua obra para adulto há uma densidade filosófica que não está presente nas obras para a criança, uma vez que apresenta uma escrita divertida, como um jogo de faz de conta que envolve o leitor infantil, diferente da escritora que expõe um sofrimento avassalador por não encontrar na linguagem como expressar a angústia interior, em seus textos dirigidos ao leitor adulto. Nas obras para a infância convida o adulto para desfrutar das histórias, até mesmo como mediador de leitura, sugerindo que realize complementações orais implícitas nas entrelinhas para melhor interatividade com a criança, ou seja, valoriza a presença do adulto na condução ora da narrativa, como percebemos no paratexto da apresentação do livro O mistério do coelho pensante: Como a história foi escrita para exclusivo uso domestico, deixei todas as entrelinhas para as explicações orais. Peço desculpas a pais e mães, tios e tias e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar. Mas pelo menos posso garantir por experiência própria, que a parte oral desta história é o melhor dela (LISPECTOR, 1999, p. 1). Nessa obra, as marcas linguísticas enunciam uma referência subjacente aos contos de fadas, como ao conto João e Maria, ao nomear o coelho, usando o diminutivo Joãozinho e, na sequência narrativa, o coelho é preso numa casinhola de grades estreitas, assim como o menino, personagem do referido conto, foi preso pela bruxa. O coelho também realiza, ao longo da história, uma série de espertezas que remontam ao coelho do conto Alice no país das maravilhas, trata-se de um coelho que pensa a cada momento que mexe o focinho, mas não pode pensar além do que a sua natureza animal permite. Daí a narrativa apresenta mistérios a desvendar, oferecendo ao leitor várias hipóteses como possibilidades interpretativas sobre o comportamento, por vezes humanizado do coelho, como nas expressões: “lembrou-se de fugir cada vez que faltasse comida na casinhola”, “Mas ele sentia uma saudade muito grande de fugir”, “É porque ele compreende as coisas com o nariz” (LISPECTOR, 1999, s/p). A partir da constituição do personagem coelho e sua forma de pensar o mundo. Clarice propõe ao leitor infantil mistérios a desvendar ao longo da narrativa, lançando ao leitor indagações do tipo: “Que é que você acha que Joãozinho fazia quando fugia?”. Ela mesma, entre numa espécie de jogo de adivinhas, convidando o leitor a se envolver com os mistérios em busca de uma solução. O coelho, embora sendo um animal frágil, conseguia levantar uma tampa de ferro e fugir da gaiola sempre que desejava. A narrativa propõe hipóteses para essa fuga frequente, utilizando expressões que aguçam a curiosidade do leitor: Às vezes penso que fugia para ver a namorada dele... Acho também que Joãozinho fugia porque cada vez ele tinha mais filhinhos e gostava de ir fazer carinho nos filhinhos... Às vezes também Joãozinho fugia só para ficar olhando as coisas, já que ninguém levava ele para passear. Nessa hora é virava mesmo um coelho pensante (LISPECTOR, 1999, s/p). Assim, leitor e narradora buscam desvendar mistérios ao longo da história: o leitor nas tentativas de descobrir o motivo das fugas do coelho; a narradora, diante da construção escrita de um mistério que deve ser mantido mesmo após o final da história. Enfim, O mistério do coelho pensante se constitui como uma permanente brincadeira, cujo maior mistério é ser capaz de imaginar, criar vínculos entre o que se escreve e o que se ler, “ouvir” com atenção o que as entrelinhas desvelam. A história apresenta uma dialética entre a fantasia e a realidade. A metáfora das fugas do coelho da gaiola nos induz a pensar na fuga para o universo da fantasia, assim como o coelho de Alice no país das maravilhas também fazia. Clarice leva o leitor infantil a questionar, não só o fato de o coelho conseguir sair da prisão, mas o que fazer quando se encontra em liberdade. Essa proposição pode ser conformada por uma estratégia de leitura ou contação de história que permitem um exercício de imaginação e assimilação da realidade pela criança. Em Quase de verdade temos a narrativa da viagem feita por um cachorro ao quintal do vizinho que, ao retornar, relata para sua dona Clarice, através de latidos, que ela compreende e traduz: “Eu fico latindo para Clarice e ela – que entende o significado dos meus latidos – escreve o que eu lhe conto” (LISPECTOR, 1985, s/p). O cachorro Ulisses é protagonista da história que, de forma criativa, apresenta dois narradores, sendo Clarice o narrador secundário que traduz para o leitor os relatos de Ulisses. O mundo ficcional da narrativa, ao apresentar um cachorro falante, torna a recepção mais lúdica e divertida para a criança. Nesse conto, a autora utiliza construções linguísticas inusitadas e mesmo inexistentes na Lingua Portuguesa, transformando substantivos em verbos, numa estratégia lúdica de aproximar-se do universo infantil: “Os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os meninos e meninas meninizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, os galos galavam a figueira figueirava, os ovos ovavam. E assim por diante” (LISPECTOR, 19085, s/p). Compreende-se essa construção linguística como uma forma lúdica de aproximar-se do universo infantil. Trata-se de uma narrativa que se aproxima da composição organizacional de uma fábula e utiliza, no inicio, as expressões próprias do conto tradicional: “Era uma vez... Era uma vez: eu! Mas aposto que você não sabe quem eu sou. Prepare-se para uma surpresa que você nem adivinha. Sabe quem eu sou? Sou um cachorro chamado Ulisses e minha dona é Clarice” (LISPECTOR, 1985, s/p). Em todo contexto da narrativa, há convites para “ouvir o texto” através do uso de onomatopeias, uma vez que Ulisses latia, os galos e galinhas cacarejavam, os passarinhos cantavam, além dos ruídos que ocorriam no quintal que o cachorro visitava. “E toca os ovos a caírem. Cada ovo que caía, fazia no chão o seguinte barulho: Pló-quiti, pló-quiti, pló-quiti” (s/p). A história contada por Ulisses a sua dona, por vezes também apresenta marcas de oralidade, que aproximam a narrativa de um conto que os pais improvisam para fazer a criança dormir. Há o uso de onomatopeias indicativas de que o contador da história está construindo o que vai dizer a seguir: - Está ouvindo agora mesmo um passarinho cantando? Se não está, faz-de-conta que está. É um passarinho que parece de ouro, tem bico vermelh0-vivo e está muito feliz da vida. Para ajudar você a inventar a sua pequena cantiga, vou lhe dizer como ele canta. Canta assim: pirilin-pin-pin, pirilin-pin-pin, pirilin-pin-pin. Esse é o pássaro de alegria. Quando eu contar a minha história, vou interrompê-la às vezes quando ouvir o passarinho (LISPECTOR, 1985, s/p). A frequente interlocução entre o cachorro Ulisses e sua dona Clarice também convida o leitor infantil a partilhar a narrativa em vários momentos, estratégia estilística que é possível observar, até mesmo no final da história: [...] Você criança, pergunte isso à gente grande. Enquanto isso eu digo: - Au, au, au! E Clarice entende o que eu quero dizer: - Até logo, criança! Engole-se ou não se engole o caroço? Eis a questão.LISPECTOR, 1985, s/p). PERTO DO CORAÇÃO DO LEITOR INFANTIL: UM CONVITE PARA “OUVIR O TEXTO” – Cecília Bajour, pesquisadora argentina, em livro Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura (2012), discute a concepção dialógica da leitura que necessita de uma “escuta atenta às entrelinhas” através da mediação da leitura, estratégia imprescindível à formação do leitor, quer seja em ambientes escolares ou não. Para ela o professor, enquanto mediador, deve, além de escutar o texto, nutrir-se de leituras várias para, junto ao aluno, formular perguntas instigantes, acompanhar o pensamento do leitor e construir os sentidos do texto. Um aluno que tem um histórico de oportunidades de mediação de leitura de textos é capaz de “ouvir” as entrelinhas e expor a sua apreciação sobre si mesmo e sobre o outro. “Escutar”, para a autora, é uma prática que se constrói, que se aprende. E o que depreendemos da leitura dos dois contos de Clarice que abordamos, neste trabalho, é exatamente esse convite que ela faz, para que a criança ouça suas narrativas e delas participe, intervindo e interagindo durante toda história, ora formulando hipóteses sobre a ação da personagem, como é no caso das fugas do coelho, ora “ouvindo” os latidos do cachorro, traduzidos por sua dona. Para Cecilia Bajour, uma conversa literária, tomando como exemplo, a que Clarice desenvolve com o leitor, nas obras infantis supracitadas, estimula perguntas, silêncios, gestos, impressões pessoais que partem da real “escuta das entrelinhas”. Cecília Bajour também critica a “espetacularização” da leitura que muitas vezes é apresentada através de “animação”, usada como “show”, performances e adereços e acrescenta que a leitura, dentro ou fora da escola, deve sim, valorizar esteticamente o texto. Retomando os contos infantis clariceanos, percebemos que os recursos estilísticos usados mantêm o leitor numa permanente conversa com a narradora que partilha as palavras num encontro intersubjetivo, que aceita o outro em suas diferenças e visão de mundo, construindo significados sem necessidade de concluí-los. Para Bajour, essa é a condição fundamental da escuta. Ainda nessa linha de discussão de “escuta do texto”, trazemos as considerações de Dany A. Kannan, em seu livro Escuta subjetivação: a escritura de pertencimento de Clarice Lispector. Para esse autor, a “escuta psicanalítica” é a que se estabelece de inconsciente para inconsciente, na relação analítica: “[...] um saber inconsciente é transferido para um outro sujeito ao qual se supõe o saber; sujeito este que deve colocar-se num estado de disponibilidade (garantido pela atenção flutuante) para escutar o que lhe é comunicado [...] (KANAAN, 2002, p. 30). A partir dessa constatação sobre a escuta do texto, o crítico literário considera que o leitor escuta o texto literário e o interpreta, enquanto que o psicanalista escuta o analisando e o interpreta, ou seja, ambos os movimentos se inscrevem na noção de escuta do texto. Poderíamos, aqui, retomar os contos infantis analisados anteriormente e pensar que a narrativa clariceana produz sentido não apenas pelo que está implícito nas entrelinhas, mas nas entrelinhas da interação com o leitor infantil, ou ainda, pelas múltiplas interlocuções que a leitura propicia. Kanaan é um estudioso da obra de Clarice Lispector e recolhemos, dele, este fragmento que reafirma as considerações que fizemos ao longo deste trabalho? Clarice, desse modo, rompe com o pacto literário, segundo o qual um texto deve ser apenas lido. Para ela, o texto, como texto de uma existência, deve ser escutado no ato da leitura, recuperando suas marcas orais, aquelas que colocariam os signos em movimento contínuo. É somente nessa dimensão que o sujeito poderia se reconhecer-realizar como tal (KANAAN, 2002, p. 169). Assim, para Kanaan, Clarice amplia a dimensão do ato de ler para a escuta do texto, sobretudo porque as marcas da oralidade passam a ser visíveis e enriquecem a sua compreensão. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Impossível considerar este trabalho como conclusivo, uma vez que Clarice Lispector é uma fonte perene e inesgotável de leituras. Trata-se, portanto, de mais um texto acadêmico não sobre a extensa obra clariceana, mas, especificamente sobre dois contos infantis, nos quais abordamos aspectos, muitas vezes desconhecidos por educadores, quais sejam, pais e professores, que poderiam mediar as referidas histórias dirigidas ao público infantil. As obras analisadas sugerem um espaço de convivência leitora entre adulto e criança, promovendo um encontro com um universo ficcional lúdico e brincante. As personagens coelho e cachorro permitem a recriação da infância, que também é a infância de Clarice, num permanente jogo do faz de conta, atraindo o leitor infantil para situações inusitadas e que exigem a sua intervenção crítica e reflexiva diante da fantasia e da realidade. O aporte teórico, sobre a concepção de “escuta do texto”, dirige o leitor para desvendar os sentidos implícitos nas entrelinhas, através da mediação de leitura aludida por Cecilia Bajour, bem como a leitura psicanalítica explicitada por Dany Kannan, dão consistência aos propósitos deste estudo ao tempo em que nos conduz a perceber a desconstrução da relação de poder do adulto diante da criança, invertendo papéis e privilegiando o olhar infantil sobre a história narrada. Deste modo, a narradora investe-se de criança, aproxima-se do leitor infantil e distancia-se do papel hegemônico do adulto. Enfim, a obra de Clarice, dedicada à criança, apresenta uma autora que não tem pretensão de adultizar as crianças, mas de conduzi-las a experimentar um universo ficcional que a fantasia permite e é permanente recriado pela imaginação. REFERÊNCIAS. BAJOUR, Cecilia. Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura. São Paulo: Pulo do Gato, 2021. KANAAN, Dany. Escuta e subjetivação: a escritura de pertencimento de Clarice Lispector. São Paulo: Casa do Psicólogo/EDUC, 2002. LISPECTOR, Clarice: A paixão segundo GH (Rocco, 2009); Quase de verdade (Rocco, 1985), O mistério do coelho pensante (Rocco, 1999), A descoberta do mundo (Nova Fronteira, 1984). Este artigo é a reelaboração de uma palestra proferida na Jornada Psicanálise e Literatura, realizada pelo Traço Freudiano Veredas Lacanianas, em 23 de março de 2019, e extraído da obra Estudos sobre leitura e literatura: uma proposta para a formação de educadores e mediadores de leitura (FAFIRE/BAGAÇO, 2019), organizado por Liliane Maria Jamir e Silva, com as colaboradoras: Maria das Graças Vieira Lins, Nelma Menezes Soares de Azevedo e Vilani Maria de Pádua.

 


GRAÇA LINS – Graça Lins é escritora e pesquisadora da Literatura Infantil e Juvenil, graduada em Letras, pós-graduada em Literatura Brasileira e em Políticas Culturais, mestre em Psicanálise, e crítica literária pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (RJ). É autora do livro Ozybil engole letras (Bagaço, 1995) do conto De amores e de Livros (Entre Laços), e articulista da Revista Brazilcomz (Espanha). Coordenou as ações culturais da biblioteca do Porto Digital e atualmente é professora dos cursos de pós-graduação em Literatura da FAFIRE/PE, integrante da Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, desde 2018.

 


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Saturday, April 02, 2022

PROJETO VIVIFICANDO A LEITURA NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO

 

PROJETO NA BIBLIOTECA - Realizou-se nesta sexta-feira, dia 01 de abril, na Biblioteca Fenelon Barreto, em Palmares, o projeto Vivificando a Leitura, com turmas do Colégio Jayme de Castro Montenegro e contação de história com Sheila de Oliveira, interpretando Isaurinha, contando sobre Nitolino no Reino Encantado de Todas as Coisas e O Lobisomem Zonzo.

 



Saturday, February 19, 2022

Saturday, July 17, 2021

BRINCANDO COM ALICE

 

 

- Oi, Alice, você sabia que “a única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível.

 

- Não.

 

- Ué, você não é Alice?

 

- Sou.

 

- Do país das maravilhas?

 

- Não.

 

- Do Lewis Carroll?

 

- Nunca ouvi falar!

 

- Nem do país de quantum?

 

- Não.

 

- Nem um pouquinho Alice do Gato de Botas, do Jaguadarte,do chapeleiro?

 

- Não.

 

- Ué, Alice de quem?

 


- De mim mesma.

 

- Desculpe, você é muito bonita, mas bem que podia me falar do país das maravilhas, não acha?

 

- Não.

 

- Faça isso não.

 

- Ah, você quer mesmo brincar?

 

- Quero!

 

- Então, pega o beco e vai passear, tá?

 

- Hum!


 


BRINCANDO COM NICK

 

 

Nitolino todo adiantado com o mocinha bonita, foi logo puxando conversa:

 

- Ô Nick, vamos fazer piquenique?

 

- Aonde?

 

- Lá depois de Jacuipe!

 

- E onde é que fica isso?

 

- Depois da taba do cacique!

 

- Quem?

 

- É só passar de tabique, lá depois de lé com cré!

 

- Vôte! Entendi nada...

 

- Ô Nique, você sabe o que é?

 

- Hem?

 

- Os sinos de Belém?

 

- De quem?

 

- Que vai vaivém!

 

- Como é que é?

 

- Cara ou coroa, se vira quem quer!

 

- Pronto, endoidou!

 

- Se você for eu também vou!

 


- Quer brincar direito?

 

- Quero.

 

- Então vai ver se estou lá na esquina...

 

Ele foi. Foi e voltou:

 

- Você está lá não, Nick.

 

- Ah, vai aprender a lamber sabão!

 

- Eu, não.

 



BRINCANDO COM TARSILA

 

 

Aí Nitolino perguntou:

 

- Ô Tarsila, para onde tu vais, menina bonita?

 

- Quem é você?

 

- Sou Nitolino Brasileiro da Silva!

 

- Quem?

 

- Nitolino! N-i-ni-t-o-to-l-i-li-n-o-no! Nitolino!

 

- Nunca vi mais gordo, vá crescer para aparecer, viu?

 

- Ô menina, eu já cresci, você que é grandona e bonita!

 

- Destá! Brinco mais dessas coisas não!

 

- Brinca não?

 

- Não.

 

- Ah, mas você é tão bonita e não brinca mais. Devia de brincar comigo de o que é o que é, de trava-língua ou de assombração!

 


- E você sabe o que é o que é?

 

- Que dá pinote e faz bé?

 

- Não.

 

- Que tem cara de besta igual um Mané?

 

- Não.

 

- Que deita a cabeça pra fazer cafuné?

 

- Não.

 

- Que solta rojão pra ver buscapé?

 

- Não.

 

- Que tira o sapato e fica só o chulé?

 

- Não.

 

- Que junta galinha pro galo Garnizé?

 

- Não.

 

- Então o que é?

 

- Um peteleco na orelha e um pisão no pé!!!

 

- Oxente, que menina mais sabida?

 

- Comigo é assim que é!

 



BRINCANDO COM LUNA BEATRIZ

 


 

Lá ia Nitolino quando de repente viu...

 

- Que menina mais bonitinha!

 

- Luna Beatriz, prazer!

 

- A que chega e diz?

 

- Como?

 

- Que quer ser feliz?

 

- Hem?

 

Hehehehehehehe!

 

- Quem é você?

 

- Sou Nitolino Brasileiro da Silva!

 

- Quem?

 

- Um super-herói!

 

- Eita!

 

- Isso mesmo, quando quero inventar sou Super-Nito!

 

- Nunca ouvi falar desse!

 

- Nunca?

 

- Jamais!...

 

- Sou o melhor de todos!

 

- Vixe, que amostrado!

 

- Você quer brincar?

 

- Quero!

 

- Vamos brincar de burra-cavalo?

 

- Oxe!

 

- De polícia e bandido?

 

- Sai pra lá...

 

- De ver quem corre mais?

 

- Muito chato.

 

- Você quer brincar do quê, então?

 

- De cantar!

 

Então, vambora!!!!





Saturday, July 10, 2021

TONINHO AGARROU A GIRAFA!!!

 

Era uma vez um menininho muito sapeca. Estava meio assim meio assado, arrumando o que fazer. Andou a casa toda e foi bater no quintal, onde viu escondidinha uma girafa bem pequenininha. Uma girafa! Eba! Vou pegá-la. E foi pegá-la e ela correu. Pega mas não pega, atrás dela que fugia. Ô girafinha mais sem jeito! Tanto insistiu em agarrá-la e ela escapava. Aí cansou e, então, falou pra ela:

 

- Ô girafinha, deixa eu pegar você!

 

E ela: - Eu não.

 

Pego!

 

Pega não!

 

Pego!

 

Pega não!

 


Tanto fez e não conseguia, por causa disso foi até a mãe dele todo cerimonioso:

 

- Ô dona Eulália, a senhora pode me fazer o favor de pegar a girafinha no quintal?

 

E a mãe:

 

- Ô meu filho, estou muito ocupada. Vá pedir pro seu pai. E ele foi. Chegando lá, o pai roncava a sono solto.

 

- Pai! Pai! Pai! -, tanto chamou e nada dele acordar. – Ôxe, esse homem só quer dormir! Ô mãe, o pai tá no maior ronco! Não acorda não!

 

- Vixe! Acorde ele, meu filho!

 

- Ah, ele não acorda não, nem com fogo nem com um banho d’água, mãe!

 

Ao perceber que não teria ajuda, ele saiu brabo e foi até a girafinha: - Agora eu lhe pego!

 

Pega aqui, pega acolá, a girafinha dava cada pinote e ele lá pega mas não pega. Até pegou-la. Pegou-la e sustentou-la. Pegou-la pelo gogó e disse feito herói:

 

- Peguei-la! Agora você vai brincar comigo até não querer mais.

 

Aí entrou pela perna de pinto, saiu pela perna de pato, o que se sabe de mesmo é que virou de fato!

 



JOÃO FELIPE, SEU MENINO!

 

João Felipe, seu menino,

Pronde é que você vai?

Vai dar a volta ao mundo

Ou correr atrás do pai?

Anda assim todo faceiro

Tal buchudo orgulhoso

Chegue cá, seu presepeiro,]

Deixe de ser tão treloso!

 

João Felipe, seu menino,

Deixe de ser tão papudinho!

Tem a cara do papito

Outro muito danadinho!

Mas não fique abusado

Nem mesmo borocochô

Mande pro raio que o parta

Esse besta tio-avô!

 



Thursday, July 08, 2021

THOMAS, VAMOS BRINCAR!

 

Thomas, Tom mas mais, fica aí como quem não quer mais nada

Papudo aboletado, todo olhudo como um rei, Buda, Nagô

Pensa é que a vida é só redonda ou quadrada?

Que nada, mas mais, só no dengo macio do frio ao calor

O que quer da vida, menino, só na gaitada

Para mangar da besteirada de seu broco tio-avô!

 



Saturday, July 25, 2020

OLÍVIA & O BOLO DA VOVÓ BEL


Olívia foi para a casa da vovó e disse:
- Vovó, do que vamos brincar hoje?
- Bruxarias!
- Êba!
- Vamos pegar o caldeirão.
- Um caldeirãozão, vovó?
- Bem grandão!
Foram lá dentro e escolheram o maior dos caldeirões. Aí a vovó reuniu os ingredientes dizendo: vamos colocar muita alegria, festa, brincadeiras e tudo o mais. Depois de arrumarem tudo, a vovó perguntou:
- O que a gente vai colocar mais na bruxaria, Olívia?
- Muitos beijos!
E Olívia mandou um monte de beijos e começaram a mexer. Mexeram, mexeram.
- O que a gente vai colocar mais no bolo, vovó?
- Abrações, muitos abraços!
E se abraçaram tanto e depois jogaram tudo no caldeirão.
- O que mais, Olívia?
- Muita felicidade!
Aí juntaram toda a felicidade que podiam, colocaram no caldeirão e mexeram, mexeram, mexeram tanto que a vovó perguntou?
- E o que mais, Olívia?
- Bem, vamos mais: que todas as crianças sejam felizes, que ninguém passe fome no mundo e que todos possam brincar para sempre!
E mexeram, mexeram, mexeram. Aí a vovó se lembrou:
- Peraí, Olívia, fica aí que eu vou buscar uma coisa.
E foi. Enquanto isso Olívia ficou inventando um bocado de coisas para rechear muito mais o bolo.
Quando a vovó voltou, Olívia contou que enquanto a vovó foi buscar mais coisas, colocou no bolo todas as histórias que sabia, todas as brincadeiras e brinquedos, e muitas outras coisas que ela mesma tinha inventado.
- Que bom, Olívia. Mas eu tenho uma surpresa para você!
- Para mim, vovó?
- Sim, veja o que eu trouxe para você: o Nitolino!
Aí o Nitolino apareceu e contou um monte de histórias brincando com a Olívia e a vovó. Foi então que ele disse:
- Olívia, você conhece a turma do Falange, falanginha, falangeta?
- Não.
- Então, para você, a Turma do Falange, Falanginha, Falangeta!
A turma envolve Olívia na brincadeira: Mnemônicas!
Aí eles brincam, pulam corda, cantam, dançam, até que Nitolino chama todos para prestarem atenção.
- Olívia, agora eu vou trazer para você: O lobisomem zonzo!
- Um lobisomem?
- Sim.
- Ah, eu tenho medo.
- Vai ter nada, veja só: vem lobisomem!
Aí entram Bichim, Jeguim, Gordim e Maluquim com o Lobisomem. Olívia queria se esconder, mas os meninos logo mostraram o lobisomem e começaram a brincar. Brincaram tanto, mas tanto, que Nitolino chamou todo mundo:
- Olívia, você conhece a história do Alvoradinha?
- Não.
- Que conhecer?
- Quero.
Então vou contar: Alvoradinha...
Quando terminou de contar a história, Nitolino disse:
- Olívia, quer conhecer o Alvoradinha?
- Quero.
- Vem, chega, entra Alvoradinha!
Então Niolino perguntou:
- Quem gosta de Literatura Infantil?
Todos responderam: Eu! Eu! Eu! Eu! Eeeeuuuuuuuuuu!
Todos responderam: Eu! Eu! Eu! Eu! Eeeeuuuuuuuuuu!
- Quem gosta de festa?
Todos responderam: Eu! Eu! Eu! Eu! Eeeeuuuuuuuuuu!
Hoje é o aniversário de Olívia, vamos todos cantar os parabéns para ela!!!!
Todos: Vaaaaamooooooooooooooooooooooos!!!!
Aí cantaram, pularam, comeram bolo e muitas brincadeiras. Aí Nitolino perguntou?
- Quem quer ir para o Reino Encantado de Todas as Coisas?
Todos responderam: Eu! Eu! Eu! Eu! Eeeeuuuuuuuuuu!
Então, larguem de besta e vamos, gente! Aí entraram pela perna de pinto e saíram pela perna de pato!!!!!


(Fotos da Olívia e a vovó Isabel Arguelhes)