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Sunday, November 01, 2026

O BOI CALÇADO DA BAOBÁ BARRIGUDA

 

Xilogravura de Lucélia Borges.

 

O BOI CALÇADO DA BAOBÁ BARRIGUDA


 Luiz Alberto Machado


Foi bater no Baobá que é a árvore sagrada da vida - o princípio da criação, para os maias. Foi a primeira árvore criada por Deus. Ao lado dela, um lago. Depois surgiram as outras árvores e, pelo lado, o baobá conferia a criação. Por que não tenho uma rosa amarela daquela? Por que não tenho uma flor vermelha daqueloutra? Toda hora perguntava. Então Deus virou-a de cabeça pra baixo, pronto, não perguntou mais nada.

 

Havia ali uma enorme Baobá. Chamavam-na de Barriguda. Embaixo dela um boi preto, com suas as quatro patas brancas, pastava e descansava. O boi vivia solto, era o Boi Calçado por aquelas paragens agrestinas. Às vezes cantava desajeitado: Baobás, embondeiros, imbondeiros, calabaceiras, cabaceiras. Assim o dia todo. A milenar árvore foi enchendo o saco e começou a reclamar. O boi mais que insolente: Cala boca, chata, não bota banca que o teu castigo foi ser plantada de cabeça pra baixo! Como é que é? Também tô sabendo que você rapta donzelas! Era ao redor delas os castigos do escravizados: tinham de dar muitas voltas sob chibatadas. Enquanto rodavam depositavam nela todas as suas memórias. Depois eram levados para o cativeiro.

 

O tronco da baobá é oco: é lá que ela acumula água. Dentro do tronco mais grosso do mundo, que chega a mais de 20 metros -, dizem, mora uma serpente. Os indígenas pediam à serpente chuva, boas colheitas e boas caças. Seus frutos são enormes, a polpa parece jaca. Sua flor nasce de cabeça pra baixo e parece um sininho muito grande e fedido. Dizem que ela vive milênios e sua semente demora mais de 10 anos pra germinar. Foi ali que apareceu Maria Paineira – porque toda paineira tem uma fibra branca e sedosa, feito algodão dos tupis. Foi apelidada de Barriguda – por conta do bucho no caule espinhento. - Ela tá buchuda -, disseram. Ela andava toda cheia de rosa, que mais pareciam orquídeas. Um dia cansou de desfilar e cultivou bagas que se abriam com bolas de algodão. A paineira barriguda é o aconchego pra alma da mãe, com sentimento de proteção e a capacidade de proteger e nutrir. Por isso é chamada de todo jeito: barriguda, árvore-de-lã, paina-de-seda, paineira-branca, paineira-rosa, árvore-de-paina, paineira-fêmea. Preenche travesseiros, brinquedos de pelúcia, tapetes.

 

Pra saber mais do lugar subi no ponto mais alto da serra da Quizanga. Depois segui em linha reta para a foz do riacho Barracas, no rio Canhoto; daí, por uma reta, para o centro da lagoa da Pitombeira; me mantive por uma reta para o olho d’água da Embira; logo após por uma reta para o alto do Mondé; fui por uma reta para o ponto mais alto do serrote da Gameleira; e de lá segui por uma reta até o centro da lagoa dos Ciganos; pegando uma reta até o ponto mais alto da serra da Quizanga. Era 1º de janeiro e muita festa com o povo dali, de Olho d’Água dos Pombos, Santa Rita e Riacho Dantas. Na verdade, as raízes do baobá guardam os ancestrais e toda memória da humanidade. É a árvore do esquecimento – pois ela guarda toda sabedoria. Quem consegue chegar embaixo do baobá escuta todos os conselhos. Conheço muita gente que conversa com baobá. Ali estão todas as histórias do mundo.

 

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