Xilogravura de Lucélia Borges.
O BOI CALÇADO DA BAOBÁ BARRIGUDA
Foi bater no Baobá que é a árvore
sagrada da vida - o princípio da criação, para os maias. Foi a primeira árvore
criada por Deus. Ao lado dela, um lago. Depois surgiram as outras árvores e,
pelo lado, o baobá conferia a criação. Por que não tenho uma rosa amarela
daquela? Por que não tenho uma flor vermelha daqueloutra? Toda hora perguntava.
Então Deus virou-a de cabeça pra baixo, pronto, não perguntou mais nada.
Havia ali uma enorme Baobá. Chamavam-na de Barriguda. Embaixo
dela um boi preto, com suas as quatro patas
brancas, pastava e descansava. O boi vivia solto, era o Boi Calçado por aquelas paragens agrestinas. Às vezes
cantava desajeitado: Baobás, embondeiros, imbondeiros, calabaceiras, cabaceiras.
Assim o dia todo. A milenar árvore foi enchendo o saco e começou a reclamar. O
boi mais que insolente: Cala boca, chata, não bota banca que o teu castigo foi
ser plantada de cabeça pra baixo! Como é que é? Também tô sabendo que você
rapta donzelas! Era ao redor delas os castigos do escravizados: tinham de dar
muitas voltas sob chibatadas. Enquanto rodavam depositavam nela todas as suas
memórias. Depois eram levados para o cativeiro.
O tronco da baobá é oco: é lá que ela
acumula água. Dentro do tronco mais grosso do mundo, que chega a mais de 20
metros -, dizem, mora uma serpente. Os indígenas pediam à serpente chuva, boas
colheitas e boas caças. Seus frutos são enormes, a polpa parece jaca. Sua flor
nasce de cabeça pra baixo e parece um sininho muito grande e fedido. Dizem que
ela vive milênios e sua semente demora mais de 10 anos pra germinar. Foi ali
que apareceu Maria Paineira – porque toda paineira tem uma fibra branca e
sedosa, feito algodão dos tupis. Foi apelidada de Barriguda – por conta do
bucho no caule espinhento. - Ela tá buchuda -, disseram. Ela andava toda cheia
de rosa, que mais pareciam orquídeas. Um dia cansou de desfilar e cultivou
bagas que se abriam com bolas de algodão. A paineira barriguda é o aconchego
pra alma da mãe, com sentimento de proteção e a capacidade de proteger e
nutrir. Por isso é chamada de todo jeito: barriguda, árvore-de-lã,
paina-de-seda, paineira-branca, paineira-rosa, árvore-de-paina, paineira-fêmea.
Preenche travesseiros, brinquedos de pelúcia, tapetes.
Pra saber mais do lugar subi no ponto mais alto da serra da Quizanga. Depois segui em linha reta para a
foz do riacho Barracas, no rio Canhoto; daí, por uma reta, para o centro da
lagoa da Pitombeira; me mantive por uma reta para o olho d’água da Embira; logo
após por uma reta para o alto do Mondé; fui por uma reta para o ponto mais alto
do serrote da Gameleira; e de lá segui por uma reta até o centro da lagoa dos
Ciganos; pegando uma reta até o ponto mais alto da serra da Quizanga. Era 1º
de janeiro e muita festa com o povo dali, de
Olho d’Água dos Pombos, Santa Rita e Riacho Dantas. Na verdade, as raízes do
baobá guardam os ancestrais e toda memória da humanidade. É a árvore do
esquecimento – pois ela guarda toda sabedoria. Quem consegue chegar embaixo do
baobá escuta todos os conselhos. Conheço muita gente que conversa com baobá.
Ali estão todas as histórias do mundo.
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