Luiz Albert Machado
Calango foi à Jurema
Com um comboio de farinha
Lagartixa pulou na frente
E pediu-lhe uma boquinha!...
No sopé da serra dos Caboclos chegou o sertanejo
retirante Zé Pedro, fugitivo da seca do Piancá da Paraiba. Ali ficou encantado com
a sombra frondosa dos juremais. Encantou-se também com os rios do Feijão, Pirangi e das Paixões, além dos riachos Gaiola, Pátio
Velho e das Paixões. E então fez festa no dia 11 de setembro a cantar:
Eu venho das águas
claras, eu venho do alto mar.
Eu venho de muito
longe, do tronco do juremal.
Lá no juremal, onde
canta o rouxinol,
onde mora a estrela
guia, onde tem raiar do sol.
A marola lá do mar,
aí vem rolando,
e a cabocla Jurema é
quem vem chegando.
O seu penacho é
verde, é da cor do mar.
Ela é Jurema, cabocla
primeira, rainha do meu jacutá.
Cabocla da juremeira,
sereia em alto mar.
A Jurema é muito linda,
com seu capacete de pena.
A Jurema não engana
ninguém.
Oh! Jurema Preta,
senhora rainha.
Dona da cidade, mas a
chave é minha!
Na sua aldeia, lá na
Jurema, não se faz nada sem ordem suprema.
Tempo disse, Tempo
dirá, que é funda a raiz da Jurema.
Oi lá nas matas, lá
na Jurema, é uma lei severa, é uma lei sem pena.
Se ele é caboclo e se
veste de pena, venha ver as forças que tem a Jurema.
Eu vi a Cabocla
Jurema se banhando na cachoeira.
Jurema é uma árvore, mas não exatamente;
ou bebida, ou local sagrado, ou cerimônia a uma entidade espiritual! Pajelança,
toré, catimbó! A mesa da Jurema! Os encantados! Jurema é uma e muitas!
Jurema é uma cidade, uma cidade do Além. Jurema é a mata.
É o juremal.
Jurema é uma árvore frondosa – vive mais de 200 anos! E
dela tudo se aproveita: raiz, casca, folhas, sementes.
Jurema é um tronco, um galho de juremeira – sagrado lugar
oculto.
Jurema é um "lugar" de onde se
vem ou para onde se vai.
Jurema sagrada!
Sou juremeiro seguindo a linha dos mestres, a linha dos
encantados:
Eu tive um sonho lá
nas matas da Jurema, nunca vi tanta beleza, cidade do juremal.
O perfume da flor da
Juremeira se espalha por todo o juremal.
Ê ê ê boca da mata,
deixa esses caboclos passar, boca da mata.
No centro da mata
virgem, uma linda cabocla eu vi.
Com seu saiote de
penas, é a Jurema filha de Tupi.
Caboclo vai embora,
pra cidade da Jurema.
Vou pra Jurema, quem
vai embora sou eu.
A jurema preta é remédio
popular nas queimaduras, gastrite, úlceras da pele e inflamações.
Ah, aí eu posso ir pro Carnaval das Catirinas!
E Bumba-meu-boi!
Catirina era uma escrava e estava
grávida. Começou a ter desejos por língua de boi. Não de boi qualquer, a língua do novilho mais querido do patrão - Se seu
desejo não fosse atendido, o bebê podia morrer ou nascer deficiente. Seu marido, mesmo sabendo do enorme risco que corria, resolveu atender o desejo da
gestante, pegou a língua do boi mais bonito. O fazendeiro
deu falta do animal, que era o seu boi preferido e exigiu que todos procurassem
por ele. O boi é encontrado quase morto no pasto e os vaqueiros apontam o
culpado. O brabão mandou capturar o fugitivo e ameaçou a sua vida. Só que,
desesperado para salvar a vida do boi, o dono da fazenda deixa o escravo de
lado por um tempo e convoca médicos para salvar o animal primeiro. Nenhum deles
consegue reverter a situação e o boi vai ficando cada vez mais fraco. Aparecem
então na fazenda os pajés da floresta e, com seus feitiços, conseguem salvar a
vida do boi. O patrão fica tão feliz e resolve poupar a vida do escravo.
É
hora da grande festa. Bumba-meu-boi!
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