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Saturday, March 21, 2015

A RAPOSA E O GALO


A RAPOSA E O GALO – O galo andava passeando e encontrou a raposa. Foi dizendo:

- Comadre Raposa, que é que há de novo?

- Nada, compadre Galo. Vamos fazer uma aposta?

- Vamos – disse o galo.

E a raposa propôs:

- Pois vamos ver quem passa mais tempo com os olhos fechados.

- Está ajustado – concordou o galo.

Então a raposa fechou os olhos e o galo fechou um e deixou o outro aberto.

A raposa, que estava procurando um momento para abocanhar o galo, abriu os olhos e o viu com um olho fechado e outro aberto. Foi reclamando:

- Compadre Galo, é pra fechar os dois olhos!

- Não, comadre Raposa! Com amigo incerto é um olho fechado e outro aberto!...

(Recolhido de Populário do Nordeste, de Veríssimo de Melo, 1957. In: DANTAS, Paulo. Estórias e lendas no norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d).


RECADINHO: APOIO ÀS ENTIDADES ASSISTENCIAIS – Acontecerá na cidade de Três Corações (MG), no próximo dia 23 de março, reunião na Escola do Legislativo que orientará a doação de impostos federais aos fundos de amparo do município. A informação é de que se pode doar até 6% do valor da declaração do Imposto de Renda (IR) ao Fundo para Infância e Adolescência (FIA) do Município. É fácil e importante para as entidades assistenciais. Informações drmauriciogadbem@gmail.com, fone 35-3239-1538 e mais detalhes acessando: http://www.doutormauricio.com (Info: Meimei Correa).



Veja mais aqui.


Saturday, July 19, 2014

NITOLINO NA LENDA DO DRAGÃO E A MOÇA NA CAVERNA DOS SUSPIROS DE FERNANDO DE NORONHA



A MOÇA E O DRAGÃO DA CAVERNA DOS SUSPIROS


Um mistério enorme recobre a Caverna dos Suspiros. Até Pai Lula contou com todos os detalhes uma lenda a respeito, recolhida de um certo Olavo Dantas. Nesse dia, todos foram tomados de tremendo pavor. Mesmo assim, Nitolino não se satisfez e ficou, vez por outra, perguntando pro avô adonde que ficava a tal caverna.

- Lá longe! -, respondia Pai Lula apontando pro horizonte.

- Quero ir lá!

- Você tá doido, menino?

- Tô não, Pai Lula, quero ver a cara do dragão e salvar a moça linda que ficou prisioneira desse desgraçado!

Pai Lula se riu bastante. Esse menino sai com cada uma, hem?

É que se conta nas noites de lua cheia da enorme e sombria caverna do Funil – a Caverna dos Suspiros -, localizada ao sopé do monte da fortaleza dos Remédios, em Fernando de Noronha.

Contam os que já se arvoraram aproximar daquelas paragens, chegando lá perto, ouvem-se estrondos, mais parecem avalanches que abalam toda redondeza, afugentando os curiosos e desavisados. Um lugar jamais penetrado, causando temores e arrepios. Os canoeiros recusam-se de ir praquelas bandas; os habitantes tremem só de ouvir o nome do lugar e sequer ousam falar a respeito. Silêncio e pavor rondam toda localidade.

Dizem que lá está guardada uma fabulosa riqueza que foi deixada pelo pirata inglês Kid, fugitivo de uma perseguição nos tempos de antanho. Acontece que o erradio navegador, para se safar da prisão, lá aportou, descarregando às pressas o tesouro de seu galeão abarrotado de ouro e riqueza, produto de saques e abordagens em muitas navegações pilhadas por suas astúcias malévolas. Diligente na fuga, lá deixou tudo enterrado. Ao sair furtivamente, foi rodeado por uma cilada, perseguido, alcançado e posto a pique. Era uma vez...

Dizem também lá existir um enorme e terrível dragão que monta guarda na defesa do tesouro do pirata. Esse dragão malvado foi visto uma única vez, quando arrebatou na beira da praia uma linda moça filha de um sentenciado, arrastada e tornada prisioneira até hoje na caverna.

Nitolino não se contentava com isso, queria tirar a prova dos nove, mostrar ao dragão quem é que manda e salvar, definitivamente, a linda moça refém dessa ruindade. Todavia, a quem ele procurasse para seguir na empreitada, ninguém aceitava. Recusa geral. Só sobrou o Lobisomem Zonzo que por ser quem é, aceitou.

- Lub, tu sabes onde é a tal Caverna do Suspiro? -, perguntou Nitolino. Em resposta, fez-lhe movimento em nuto positivo. – Beleza! Então amanhã cedo partiremos e viva a aventura!

O zonzo lobisomem alegrou-se e bateu palmas, rodeando a si mesmo atrás do rabo, em efusiva comemoração. Que bicho mais doido!?!

Já findava a tarde e eles se despediram marcando ali cedinho bem na hora dos primeiros raios do sol da manhã. Assim foi.

Na hora aprazada se encontraram e seguiram rumo incerto e não sabido. O zonzo na frente, o Nitolino atrás, seguindo-lhe os passos. Encheram a rodagem de pernas pela manhã toda, almoçaram o que encontraram: jaca, fruta-pão, cajus, ingás. Prosseguiram fazendo rastro pela tarde, levaram parte da noite nos peitos e arrearam arranchando numa chã enluarada. Foram acordados com o brilho intenso do sol, enchendo o bucho com água de coco, sinal de que estavam nas proximidades do litoral.

Chegando à praia, o zonzo fez uma jangada dumas palhas de coqueiro e seguiram remando mar adentro. Já passava do meio dia quando o zonzo teve que dar uns ataques embaixo da água trazer alimento. Como não podiam fazer fogo na jangada, comiam peixes crus para matar a fome. Enfim, já quase varando a madrugada, chegaram a Fernando de Noronha, saíram às carreiras e atacaram os coqueiros quase mortos de sede. Dormiram ao relento e se acordaram com a água da maré alta invadindo tudo de quase matá-los afogados. Olharam um pro outro e seguiram à risca o traçado.

À certa altura da caminhada começaram a ouvir uns pipocos. Zonzo fez sinal que logo Nitolino entendeu ser logo ali mesmo a hora próxima da chegada.

Ouvia-se um suspiro lamuriento no ar, um vento tormentoso com uma voz feminina lamentosa ao fundo bem distante.

O caminho de difícil acesso era dificultado pela penetração do mar violento castigando nas adversidades.

Perseguiram resolutos e quase enterram os pés de medo quando ouviram prantos longínquos fazendo eco na pedraria.

No maior tremido de dentes e pernas chegaram ao morro. Hesitaram, mas se mantiveram firmes e entraram pela curiosa gruta, seguindo pela trilha do passômetro do oficial da Marinha, Heitor Perdigão.

Lá dentro o ar era difícil, tudo muito escuro.

Nitolino seguia as pegadas do zonzo sem nem vê-lo mais à frente, vez que não se enxergava nada. Andaram. Andaram. E mais andaram. Quanto mais adentravam mais ficava difícil respirar.

No meio do vento quente, soprava às vezes uma ventania fria de arrepiar todos os pelos e ânimos.

De repente, um calor de lavar do cocuruto ao rés da sombra do calcanhar. E agora? Vai ou volta? Só dava pra ver o branco dos aboticados olhos. Como é? O zonzo puxou-lhe pela manga da camisa e seguiram os quase destemidos. E quanto mais avançava nas profundezas do antro, maior o calor e a escuridão com suspiros ensurdecedores, com bafejos horripilantes, morcegos voando, corujas rasgando mortalhas, gemidos fúnebres, piados agourentos, pisadas perseguidoras, estalidos estonteantes, ronronadas bravias, solfejos tétricos, quenturas, bramidos, maus presságios. Ah, deram conta de uma luz lá longe no final do túnel. E quanto mais se vencia um centímetro que fosse, mais aquela claridade se tornava diminuta e remota.

- Lub, isso não tem fim? -, perguntou Nitolino. Realmente, pelo andar das coisas, parecia mais que aquilo não tinha fim ou iam dar no centro da terra. Será? Foi quando Nitolino lembrou-se da viagem de Julio Verne. Isso mesmo!

- Vamos, Lub, vambora que o centro da terra chega já!

O zonzo só fazia impar de medo e caminhar, puxando pela mão dele. E mais andaram quando se certificavam que luzinha mais amiudava.

- Vixe! Quanto mais a gente vai, mas tudo fica mais longe, é? -, perguntou Nitolino invocado!

O zonzo fez-lhe um gesto esticando o beiço inferior para dar uma ideia da distância. Foi aí que aumentaram a passada no meio da maior barulheira que causava terrores apavorantes.

- Não seja frouxo, Lub! Vamos adiante!

Zonzo já botava um palmo de língua pra fora da carreira dada quando, enfim, a luz fez-se mais forte, clareando tudo. Ah, há!

Era o fogo do dragão.

Pernas pra que te quero voltando uma lapada de terra pra se esquivar do fogaréu.

Acharam uma fenda numa banda das paredes, esconderam-se ali tremendo que só vara verde para não serem tostados.

Dali a pouco, no meio da escuridão só dava se ouvir o batido dos ossos de cada um.

Foi aí que o zonzo puxou de vez por Nitolino e empurrou-lhe para outra vala lateral e foi-se. Parecia que o bicho ia enfrentar o dragão. E foi mesmo.

Escondido, Nitolino atocaiava tudo de fininho, dando pra ver o zonzo aos pulos se livrando do fogo do dragão. Numa das escapadas, deu pra ver uma linda moça sentada à beira de uma cachoeirinha, segurando uma rosa. E tudo escurecia de novo de só se ouvir o impado do zonzo e o bafejo do dragão. Eita!

Lá pras tantas, quando Nitolino tentou conter os nervos trêmulos, deu de cara com a aproximação do dragão, percebendo no meio de tudo as astúcias do zonzo em cansar o monstro. Mas, pra nossa infelicidade, o dragão deitou suas patas fechando o círculo pro zonzo encostado na parede, de deixá-lo sem saída e pronto para abocanhá-lo. E quando bateu a cauda para dar o ataque final, ouviu-se um grito do zonzo que fez o horrível dragão parar. Deu pra ver o conferido todo.

Era o zonzo fitando atentamente olho no olho do bicho, encarando mesmo encostado à parede sem ter como se livrar daquela situação.

Contudo, dava pra notar que na conferência do dragão, havia a descoberta de certa familiaridade que o fez mudar de feição. O zonzo olhava-o firme, mas tremendo. As fitadas demoraram como se ambos não soubessem o que fazer ou o agigantado malfeitor buscava na memória algo de familiar naquela sua presa.

Zonzo fez lá salamaleques e, de repente, o dragão soltou uma gargalhada e se pôs balançar o rabo. Foi se aproximando, se aproximando, se aproximando e... deu pra ver o dragão dando um beijo no zonzo. Como? Vôte! Foi isso mesmo. E beijou, beijou, beijou... a moça linda da pequena cachoeira batia palmas, parecia mais festejar aquele encontro.

Envolvido em zis carícias e chamegos, logo o zonzo abraçou o rosto do dragão correspondendo os beijos. Pareciam dois namorados. E eram mesmo, de anos afastados.

Aos poucos Nitolino foi perdendo o medo e se aproximou dos dois. Logo viu um ar de malquerença no dragão. Zonzo interveio tentando demonstrar tratar-se de um amigo. Foi quando viu que a moça linda se aproximou pra dizendo: - Meu herói! Veio me salvar! Ôxe! Ficou todo ancho por constatar seus sonhos realizados: tornar-se super-herói!

De um momento que dava do mais profundo terror, virou festa. O zonzo ficou dançando com o dragão que depois se soube pelos esclarecimentos dados pela moça linda, ser, na verdade, uma dragoa e namorada do Zonzo de infância. Aí ela contou tudo, como viviam, como estavam vivendo ali há tantos anos de séculos e ela linda desde que fora capturada. Foi aí que se soube que, como o Lobisomem Zonzo, o dragão – ou melhor, a dragão-fêmea - só queria alguém para brincar. 


Entrou pela perna pinto, saiu pela perna de pato, o seu rei mandou dizer que entrasse outro ato! 

Veja mais lendas & histórias aqui.



Saturday, January 05, 2013

LENDAS DO NORDESTE – O GARROTE JAUARAICICA




O GARROTE JAUARAICICA


Noite escura no Reino Encantado de Todas as Coisas.

A meninada toda aboletada no chão da varanda do casarão, à espera de mais uma contação de histórias do Pai Lula.

Quando ele chegou todo com ar misterioso e olhos esbugalhados, foi logo dizendo com uma voz amedrontadora:

Era uma vez, Nitolino estava todo arrumado de domingueira, quando foi levado por sua avó pra festa do padroeiro São José da Agonia, em Água Preta, nas terras do Pernambuco.

Era uma tarde quente e o povo pra lá e pra cá se espremia desfrutando de roletes de cana, canjica, pipoca, arroz doce, roda gigante e outros entretenimentos.

A locução da difusora da festa anunciava ofertas musicais pros enamorados, parentes e presentes.

A rua toda tomada de gente de todas as localidades davam-na como a maior festa da redondeza.

Eis que no meio da multidão surge um garrote escuro e bravo botando todo mundo pra correr.

Na fração de segundos, não havia ninguém mais nas imediações, só Nitolino e o touro que fumaçava pelas ventas, fitando-o como quem vai pegá-lo.

Eita, boi brabo danado!

Nitolino olhou pros lados e não viu ninguém, nem onde se esconder. Olhou pros quatro cantos e mais percebia a fúria do boi vindo em sua direção.

Aí, ele não teve dúvidas e começou a carreira descendo a ladeira pra sua casa. E o boi correndo atrás dele. Subia a calçada da direita e o boi atrás. Atravessou a rua, o boi atrás, foi pra calçada da esquerda e o boi atrás. Entrou dentro de casa e o boi atrás. Quando chegou ao quintal, o boi já lhe alcançando, livrou-se dele, do desembestado enfiar os chifres na beirada do brejo que corria atrás da sua casa.

Nitolino escondeu-se num quarto escuro no quintal, tremendo que só, enquanto o boi mugia brabo tentando se livrar da sua prisão. Libertando-se, largou um rugido estrondoso e desapareceu.

Dizem que aquele garrote era o Jauaraicica, uma abusão medonha, tido como filho da vaca Estrela, criado pela mãe-dágua e que costumava aparecer no meio da seca do sertão.

Era um bicho gordo, bonito, preto que nem breu no escuro e vivia de dar marradas em boi de maior tamanho, derrubando cercas e arrazando roçados.

Ele era indomável, subia em pedra lisa, removia tudo pela frente e desafiava qualquer vaqueiro.

Até que um dia, contam que um certo Zé Preto foi contratado pelo coronel Serzenando para dar cabo daquele troço que lhe causava prejuízo na fazenda.

O vaqueiro saiu montado no seu cavalo com matulagem no prazo de uma semana para capturá-lo.

Passou-se mais de mês e Zé Preto perseguia o garrote por tabuleiros, pelas matas, pelo agreste, pela caatinga, pela Várzea Pequena, pelas serras dos Francos e do Araripe, pela feira de Quixadá, por Jaguaribe, pelas terras de Quixeramobim, nos pastos em Muxiopó, por Rinaré e pela serra Azul, só encontrando no caminho onças esfareladas, bois estirados, vaqueiros aleijados, matas destroçadas, todo tipo de bicho morto.

Já desperançado, quando chegou na serra dos Mocós, bem na beirinha do açude Uirapiá, deu de cara com o bicho que fumaçava pelas ventas e tirava fogo das pedras.

Foi aí que ele gritou: - Vou te pegar, desgraçado!!!

Começou o poeirão de durar horas e só se ouviu o timbungue deles dentro do remoinho do açude de nunca mais saber notícia deles.

O Nitolinlo salvou-se dessa e o negócio entrou pela perna pinto, saiu pela perna de pato, ficou assim sendo e vamos brincar no maior espalhafato.

FONTE:
LOPES, Moacir. Chão de mínimos amantes. São Paulo: Francisco Alves, 1961.
DANTAS, Paulo (Org.). Estórias e lendas do norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d.

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Thursday, March 03, 2011

LENDAS DO NORDESTE



Imagem: ilustração de J. Lanzellotti.

O GAVIÃO E A RAPOSA

Uma vê compadre Gavião andava voando por cima de uma faendo e avistou um queijo.

Desceu lá embaixo, apanhou-o e fugiu para bem longe.

Lá em cima, o Gavião distraiu-se e o queijo escapuliu, caindo bem no meio da estrada.

Depressa, comadre Raposa, que andava por ali, avistou o queijo e abraçou-se com ele.

O Gavião desceu rápido e disse:

- Eu quero meu queijo!

- Que queijo? -, indagou a Raposa. Este aqui é meu. Caiu agora mesmo do céu.

O Gavião contou a sua estória, que tinha apanhado o queijo numa fazenda, mas a Raposa não se conformou. Então propôs:

- Compadre Gavião, já que você diz que o queijo é seu, vamos questionar. Vamos à casa do juiz;

O Gavião aceitou a proposta e saíram os dois.

O juiz era o Guaxinim e o escrivão era o Macaco.

Quando chegaram lá, o juiz mandou buscar a balança da justiça.

Cortou o queijo em dois pedaços (sendo um bem maior do que o outro) e mandou o escrivão pesar.

É claro que o lado do queijo maior pesou mais. Então o Guaxinim pediu uma faca, cortou um pedaço, comeu-o e botou o resto no prato da balança.

O outro lado, que estava maior, pesou mais...

Então o juiz tirou outro pedaço de queijo, e deu-o ao escrivão, que também comeu logo, e botou o resto na balança.

E assim o Guaxinim e o Macaco comeram o queijo todo, enquanto o Gavião e a Raposa espiavam calados....

No fim a Raposa reclamou:

- Mas, os senhores comeram o queijo todo da gente!

E o Guaxinim sentenciou, afinal:

- Quem tem coisa de pouco valor não questiona!

Lenda recolhida de Veríssimo de Melo.

FONTES:
DANTAS, Paulo (Org.). Estórias e lendas do norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d.
MELO, Verissimo. Populário natalense. Natal: Biblioteca da Sociedade Brasileira do Folclore, 1957.

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