BRINCARTE

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Wednesday, January 14, 2015

O CACHORRO E A COTIA


- No tempo que os animais
Seguiam a civilidade
Do que na atualidade...

O tigre era juiz de direito,
O burro era doutor,
O macaco era escrivão,
A preguiça coletor

Nesse tempo o jovem rato
Habitara num chalé
E namorava a catita
A filha do punaré...

No decorrer do namoro o rato abusa do amor da noiva e foge. Põe-se tropa em sua procura e, ao narrar a sua prisão, mais uma vez se desvenda a alma irônica do sertanejo:

- Avistaram o criminoso
Lá em cima dum penedo:
Muitos soldados correram,
Outros morreram de medo...

Por fim, o rato resolve casar e, durante o banquete de noivado, o cachorro que era delegado de polícia, trava-se de razões com a cutia; alguns animais tomam o partido dela, outros o dele; há uma verdadeira conflagração:

- Desde esse dia ficaram
Os animais intrigados...

FONTES:
BARROSO, Gustavo. Terra do Sol. Rio de Janeiro: Benjamin de Aguila, 1912.
DANTAS, Paulo. Estórias e lendas do norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d;

Veja mais aqui.



Tuesday, December 30, 2014

O UNIVERSO DE LUIS DA CÂMARA CASCUDO


A ONÇA E O BODE

O Bode foi ao mato procurar lugar para fazer uma casa.  Achou um sítio bom.  Roçou-o e foi-se embora.  A Onça que tivera a mesma ideia, chegando ao mato e encontrando o lugar já limpo, ficou radiante.  Cortou as madeiras e deixou-as no ponto.  O Bode, deparando a madeira já pronta, aproveitou-se, erguendo a casinha.  A Onça voltou e tapou-a de taipa.  Foi buscar seus móveis e quando regressou encontrou o Bode instalado.  Verificando que o trabalho tinha sido de ambos, decidiram morar juntos.

Viviam desconfiados, um do outro.  Cada um teria sua semana para caçar.  Foi a Onça e trouxe um cabrito, enchendo o Bode de pavor.  Quando chegou a vez deste, viu uma onça abatida por uns caçadores e a carregou até a casa, deixando-a no terreiro.  A Onça vendo a companheira morta, ficou espantada:

– Amigo Bode, como foi que você matou essa onça?

– Ora, ora… Matando!… Respondeu o Bode cheio de empáfia.  Porém, insistindo sempre a Onça em perguntar-lhe como havia matado a companheira, disse o Bode:

– Eu enfiei este anel de contas no dedo, apontei-lhe o dedo e ela caiu morta.

A Onça ficou toda arrepiada, olhando o Bode pelo canto do olho.  Depois de algum tempo, disse o Bode:

– Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…

A Onça pulou para o meio da sala gritando:

– Amigo Bode, deixe de brinquedo…

Tornou o Bode a dizer que lhe apontava o dedo, pulando a Onça para o meio do terreiro.  Repetiu o Bode a ameaça e a onça desembandeirou pelo mato a dentro, numa carreira danada, enquanto ouviu a voz do Bode:

– Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…

Nunca mais a Onça voltou.  O Bode ficou, então, sozinho na sua casa, vivendo de papo para o ar, bem descansado.



LITERATURA ORAL NO BRASIL – No livro Literatura oral no Brasil, Luís da Câmara Cascudo aborda sobre as fontes da literatura oral, elementos e temas, participação indígena, fábulas, lendas, mitos, tradições, poética, sobrevivência afro-negra, permanência portuguesa, fontes impressas, os romances e sua sobrevivência, antologia do conto popular brasileiro, contos de encantamento, contos de exemplo e de animais, facécias, contos religiosos e etiológicos, ciclo da morte, poesia oral, poesia mnemônica, desafios, ciclo do gado, gesta dos valentes, cantiga social, autos populares e danças dramáticas, fandango ou marujada, chegança, congo ou congadas e bumba-meu-boi.


VAQUEIROS E CANTADORES – Neste livro o autor aborda os nativos da poesia tradicional sertaneja, poesia mnemônica e tradicional, romances, pé-quebrado, os ABC, pelos sinais e orações, ciclo do gado, o cantador, ciclo social, a cantoria, o desafio e um documentário trazendo os principais personagens da música e da literatura oral nordestina. 


LOCUÇÕES TRADICIONAIS NO BRASIL – Nesta obra revive o significado das expressões usadas pelo povo nordestino, trazendo o histórico de cada expressão e sua explicação, reunindo palavras e frases que são usuais nessa região e em todo país.

REFERÊNCIAS
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ouro: 1967.
______. Literatura oral no Brasil. São Paulo/Belo Horizonte: Itatiaia/EdUsp, 1984.
______. Vaqueiros e cantadores. São Paulo/Belo Horizonte: Itatiaia/EdUsp, 1984.
______. Locuções tradicionais no Brasil. Recife: EdUFPE, 1970.

Veja mais aqui.


Sunday, July 21, 2013

HISTÓRIAS E LENDAS DO NORDESTE – A ONÇA E O BODE


A ONÇA E O BODE

Ilustração de J. Lanzellotti.

Pai Lula, como de costume, chamou a meninada. Logo vieram todos que se aboletaram ao seu redor. Sabiam que além de um grande cientista, ele também gostava de contar histórias.

Aí Nitolino mais inheto que todos, foi logo perguntando:

- Qual será a história de hoje, Pai Lula?

- Hoje vou contar a história do acordo da Onça e o Bode.

Aí a criançada toda curiosa, logo gritou:

- Conta! Conta! Conta!

Aí Pai Lula foi explicando que quando era muito menino, sua mãe pegou um livro que tinha umas histórias recolhidas por Basilio de Magalhães e Paulo Dantas e começou a narrar a história prometida.

O bode foi no mato procurar lugar para fazer sua casa. Andou, andou, até que achou um sitio bom. Roçou-o e foi-se embora.
A onça, que também tinha saído com a mesma ideia, chegando no mato e encontrando aquele lugar roçado, exclamou:
- Oh! Nosso Senhor está me ajudando! Já tem aqui um lugarzinho limpo!
Cortou a cumeeira, os esteios, os caibros e ripas, carregou-os, botou-os no ponto escolhido e foi-se embora.
No outro dia, veio o bode e, ao dar com toda madeira já pronta, ficou admirado, dizendo:
- Oh! Nosso Senhor está me ajudando!
Cobriu a casa e foi-se embora.
No dia seguinte, veio a onça e ficou de boca aberta, quando vou a casa armada, dizendo muito satisfeita:
- Oh! Nosso Senhor está me ajudando!
Cobriu a casa e foi-se embora. Veio o bode no dia imediato e disse:
- O que? Nosso Senhor está me ajudando!
Tapou a casa, indo mais que depressa buscar os carregos. Vindo a onça achou a casa acabada. Correu e foi igualmente buscar os seus trastes. Quando chegou de volta, já o bode havia posto os cacarecos dentro de casa e estava espichado no meio da cama, bem de seu.
- Ah! Era você, amigo Bode, que estava me ajudando?
- Ah! Era você, amiga Onça, que estava me ajudando?
- Bem, amigo Bode, agora nós vamos morar juntos.
O bode ficou muito desconfiado; mas não teve outro jeito, senão morar com a onça, para não perder o seu trabalho, mas vivia com a pulga atrás da orelha. Então os dois fizeram contrato de cada um ter a sua semana para ir caçar.
Um dia, a onça, indo à caça, matou um cabrito. Quando chegou no meio do terreiro, jogou-o ao chão e disse para o companheiro, roncando no peito:
- Amigo Bode, vai preparar este bichinho, que eu trouxe para nós comermos.
O bode ficou tremendo de medo, mas se fez de cavalheiro. Preparou o cabrito e botou-o na mesa. A onça encheu bem a barriga; o bode, porém, não quis comer, dizendo que estava doente.
No outro dia o bode foi caçar. Chegando no mato, encontrou uma onça, que alguns homens haviam matado. Pelejou, pelejou, puxa daqui, puxa dacolá, até que, a muito custo, trouxe-a até ao meio do terreiro. Largou-a e disse, cheio de empáfia:
- Amiga Onça, vá preparar este bichinho, que eu trouxe para nós comermos.
A onça ficou espantada e perguntou:
- Amigo Bode, como foi que você matou esta onça?
- Ora, ora.... matando!... – respondeu o bode.
Porém, insistindo sempre a onça em perguntar0lhe como havia matado a companheira, disse o bode:
- Eu enfiei este anel de contas no dedo, apontei-lhe o dedo, e ela caiu morta.
A onça ficou toda arrepiada, olhando o bode pelo rabo do olho.
Depois de algum tempo disse o bode:
- Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo...
A onça pulou para o meio da sala gritando...
- Amigo Bode, deixe de brinquedo....
Tornou o bode a dizer que lhe apontava o dedo, pulando a onça para o meio do terreiro. Repetiu o bode a ameaça e a onça desembandeirou pelo mato a dentro, numa carreira danada, enquanto ouvia a voz do bode:
- Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo...
Nunca mais a onça voltou. O bode ficou, então sozinho na sua casa, vivendo de papo para o ar, bem descansado.

Quando Pai Lula concluiu a história, logo o Bichim foi dizendo:

- Esse bode era muito sabido!

- Era, era.... -, disse o Mindinho sob aplausos do Bichim e do Lobizonzo.

- Nada, a onça é que era besta! -, desdenhou o Maior-de-Todos.

Nessa hora, a trupe logo se dividiu, uns a favor da sabedoria do bode, outros na tolice da onça.

Tia Conça que chegava foi logo apaziguando:

- As duas coisas, minha gente. Tanto o bode era sabido, mesmo sendo o mais fraco e temeroso, como a onça mais temida passou por lesa. A moral é que pela inteligência e sabedoria, o mais fraco pode vencer o mais forte, como no dia que o Pontinho miudinho, destamaínho, mas com muita coragem e sabedoria enfrentou o monstro terrível Anhangá!

Nessa hora o Pontinho ficou todo ancho e bateu no peito:

- Eu sou o SuperPontinho!!!!!!!!!!!!!

- Êeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee! – festejou toda turma.

Aí Pai Lula falou que entrou pela perna do sapo e saiu por debaixo da rã, quem quiser mais outra história que venha aqui amanhã de manhã.

FONTE:
CAMPOS, J. da Silva. Contos e fábulas populares da Bahia. In: MAGALHÃES, Basilio. O folclore no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1939.
CASCUDO, Luis da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ouro, 1967.
CASTRO, Yêda Pessoa. Contos populares da Bahia : aspectos da obra de João da Silva Campos. Salvador: Prefeitura de Salvador/SMEC/DAC, 1978.
DANTAS, Paulo. Antologia ilustrada do folclore brasileiro: estórias e lendas do norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d.
MAGALHÃES, Basilio. O folclore no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1939.