Saturday, October 17, 2026

JUPI

 

Imagem: integrantes do grupo vocal Mulheres Fulni-ô, na divulgação do espetáculo musical Vozes Ancestrais – Yafeëkhet’de Sekletxase.


JUPI

 

Um beija-flor já vi morto

Ali na verde roseira

Deu-lhe a morte agudo espinho

De uma rosa traiçoeira!

 

Ouvimos a hestória triste perto do olho d’água de Yu-py, que assim era pros Ouricury: É espinho aguçado, fino e pontiagudo.

 

Ouricuri é sigilo yaathe e sagrado Fulni-ô – o povo da beira do rio! É ritual só pra iniciados, muita reza e oração. Nele se faz artesanato.

 

Ouricuri é palmeira nordestina e um jardineiro certa vez encantou-se com uma linda roseira e resolveu colher a linda rosa para oferecê-la para quem mais estimasse. Ao entregá-la, a pessoa gritou! Ai! Ele então envergonhou-se e ficou muito desapontado, recolhendo a rosa que causara dor na pessoa amada. Desculpou-se e saiu. Espera! Ainda cabisbaixo, aguardou as reclamações. Dê-me, vá, muito obrigada! Ele ficou perplexo: Obrigado? A rosa feriu e não era isso que eu queria. Não me feriu, apenas deixou uma marca para que eu jamais esqueça ato tão singelo.

 

Meu balaio de costura

Tem um segredo no fundo

Querer-me bem, quem desprezo

Querer-me mal todo mundo!

Quem anda de noite faz vezes de bacurau!

 

Da serra do Jupi dá pra ver tudo: os sítios Catonho, Miné, Pau-Ferro, Raposa e Xícurus. Os rios da Chata e o do Retiro. Os riachos do Estreito e da Volta do Rio.

 

Dois pés de Ouricuri na Praça do Rosário, era lá um antigo Jatobá, mas o marco zero é no Peri-Peri. As plantas das casas das missangas e lá estão as Areias, Barro Vermelho, Lagoa da Pedra, Marmeleiro, Miné, Pau-Ferro, Rio da Chata, Saco-dos-bois, Santa Rosa, Serrinha e Várzea da Raposa. Veja mais aqui.

 



Saturday, October 10, 2026

JUCATI

 

 JUCATI

 

Luiz Alberto Machado

 

Dali fomos pro Sítio Ouricuri, que também era chamado de Pindorama, repleto de coqueirais. Lá estavam palmeiras ariris, também chamadas de alicuris, uricuris, nicuris. Pra quê tanto nome, meu Deus!

 

Vamos tomar água de coco, saborosa.

 

Lá tem o pau-ferro Jucá – na verdade, tupi yu'ká. É madeira densa, pesada e dura. Que nasce entre pedregosos e fica alta de mais de 30 metros. Grandona, mesmo! A copa imensa para sombreamento. Com floração amarela no verão. Casca lisa, com tons de bege e cinza. Serve para construir casas ou navios, mobiliário, carvão e coque, alimenta animal, medicinal, para produção de mel, arborizar as cidades, embelezar as paisagens, repor as matas.

 

Tu que és um varro de marca

Só merece uma sela

E isto te ofertamos

Porque custa bagatela!

 

Conta-se que um casal se uniu em matrimônio e foram ser ali felizes para sempre. Com pau ferro construíram sua cabana e, entre outras coisas, cuidavam, pescavam e viviam. Corriam e conheciam tudo pela região. Depois de muito trabalharem e passearem, gostavam mesmo de ficar à sombra desse pau ferro, olhando as nuvens e o céu de dia, as estrelas de noite. Um dia o rapaz foi trabalhar e, quando retornou, encontrou apenas pegadas: seu amor sumira. Nunca mais seria vista. Uns disseram que ela se afogou no rio, ou que foi raptada por ruindade qualquer. Ninguém sabia ao certo. Ele então saiu pelos quatro cantos do mundo e nada de encontrá-la. Chegando de volta, encarou o pau ferro e nele subiu para chorar, lá no alto arrancou uns galhos e fez uma cruz de madeira e enfincou-la no topo da árvore. Depois desse dia nunca se viu.

 

Eita!

 

Quando menos esperávamos fomos saudados pelo povo da Vila Neves! E jogamos conversa fora, quanta pinoia, verdadeiro aranzel!

 

Um brinde quero erguer:

Não se concebe tão grande asneira,

Não se imagina tanta tolice.

Não se perdoa tanta besteira,

Não se comenta tanta sandice!

Vamos mudar de assunto!

 

Olha o riacho da Pracinha! E lá vão os rios Chata e Canhoto...

 

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Saturday, October 03, 2026

CAETÉS, AVENTURAS DO NITOLINO NO VALUNA

 

 Imagem: Estação Ecológica de Caetés (ESEC – Caetés - CPRH)

 

CAETÉS

 

Luiz Alberto Machado

 

No outro dia seguimos pro mato real da mata virgem! Foi quando a gente ouviu a história do pavão... Um cantador começou explicando que a mata parecia um carnaval porque lá havia todo tido de coisas coloridas, passarinhos, borboletas, vagalumes, apesar da escuridão, havia sempre uma fresta de luz. Andava ele pelo mundo afora, quando, uma vez, apareceu um pavão vistoso, com seu peito azul, sua cauda multicolorida, toda graça e beleza. Era uma ave mágica, com certeza, até falava:

 

- Sou para protegê-lo das coisas maléficas e promover a sua boa-sorte.

 

O pavão contou pra ele da vida, das coisas que enfrentou, das lutas que perdeu. Mostrou a beleza da serra, os rios caudalosos, as matas densas. Ensinou tudo: a vida e o que vem depois dela, como enfrentar serpentes, como prever a chuva e a morte. Depois abriu-se em pleno espalhando sua cauda colorida ricamente e dedicou uma de suas penas. Com o tempo constatei: as penas dele não desbotam nem perdem o brilho, salvam moças de ficar pra vitalina, decidem a sorte do encontrado. Esse o pavão com seu jeito todo elegante, sua plumagem tão maravilhosa, seus passos firmes e lentos, empoleirado nos parapeitos ou no galho de alta árvore.

 

Foi daí que o repentista criou o cordel do Romance do Pavão Misterioso, que ninguém sabe direito se é de Melchíades ou de Camelo, contando a história de Evangelista e Creusa.

 

Pavão misterioso

Pássaro formoso

Tudo é mistério

Nesse seu voar

Ai, se eu corresse assim

Tantos céus assim

Muita história eu tinha pra contar...

 

E juntou gente para ouvir tudo que contara. Era gente de Ponto Alegre, Atoleiro, Barriguda, Bastões, Vila Araçá, Várzea Comprida, Várzea Suja e Queimada Grande.

 

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