CORDEL
DESDE INFÂNCIA, APRUMANDO A CONVERSA
Luiz Alberto Machado
Desde menino da beira do rio que sempre apreciei embolada, repente e
cantoria.
Não havia esquina em que não encontrasse dois violeiros, viola de dez
cordas ao ombro, pronto para glosar qualquer mote.
Lá estava eu olhos vidrados no meio da feira – prestava atenção aos
improvisados dos repentistas.
Quando não, uma dupla de pandeiro puxando o coco: Embolar coco é assim, se a gente perde o começo não sabe onde é o
fim...
Não fosse minha mãe me arrastar pelas orelhas, ali ficaria de esquecer
tudo: era para ajudar no carregamento das sacolas de compras, peso danado, não
para ficar entretido gastando as vistas, aboletado nas visões e de braços
cruzados. Foi.
Aí, xexéu da cara lisa, imitava o que via e ouvia, sapecando umas
quadrinhas infantis, que findaram publicadas, pela iniciativa da saudosa
professora do primário, Hilda Galindo Corrêa, no suplemento Júnior, do Diário
de Pernambuco, editado pelo memorável jornalista Fernando Spencer.
Ah, foi o bastante para me achar um poeta de cetro e coroa, todo pabo e
cheio das noves horas.
Foi só um começo, pois ao chegar pelas beiradas dos 10 anos de idade,
santa inocência minha: enchia o peito por bater o centro na atividade laboral
de copista, ocupado em efetuar o registro de sentenças prolatadas pelo Juiz de
Direito da Comarca, catando o palavreado para mais versejar.
Era como se tivesse achado uma botija, logo me agarrando aos
dicionários e enciclopédias.
A coisa estava ficando séria e, achando pouco, ainda agarrava uma viola
de 10 cordas e me danava a compor umas modas estouvadas.
Pronto!
Agora era o sabiá da parada!
Teria êxito nessa empreitada, não fosse um irrisório detalhe: não sabia
nem os acordes nem cantar, tocava assim mesmo, de qualquer jeito, na intuição:
telengotengo, larará.
Lá ia eu e o tempo foi passando.
Como era tão desajeitado, a minha arte perturbava a paciência alheia:
os meus esgoelados das tripas coração levou a uma medida coercitiva. E meu pai,
que era um sonetista de mão cheia e admirador da cultura popular, resolveu
botar os pingos nos iis e tomou uma providência que quase deu certo.
Primeiro, ele sempre me levava junto para vê-lo provocar um ou outro
cantador para destrinchar uns motes, dizendo inclusive como queria o
desenrolado, se martelo agalopado, se galope, mourão, ou desafio que fosse,
findando até um esculachando o outro, dos dois quase brigarem na vera e saírem
no braço. Tudo só pra risadagem. No final, ele virava pra mim: Viu como é?
Ah, via, muitas vezes, quase todo dia, uma velha senhora sentada num
batente da igreja da matriz, berrando: Tem
quatro coisas no mundo que não ensino a ninguém: é nadar num rio cheio, correr
na frente de um trem, é amar quem não lhe ama, esperar por quem não vem!
Tanto gostava disso que fui aprendendo aos poucos a distinguir as mais
diversas formas: quadrão, galope à beira-mar, décima, sextilhas, oitava antiga
ou obra de oito, dez de queixo caído, oitavão rebatido, oitava corrida,
ligeira, desmancha ou décima corrida, língua d’angola, coqueiro da Bahia, dez
de adivinhação, louvação, trava-língua, rojão pernambucano (Quando eu ia ela voltava, quando eu voltava
ela ia), colecionando cordel de todo tipo, desde o Pavão Mysterioso até os
que apareciam na hora que a gente gravava no que podia.
Além do mais, meu pai tinha disco de tudo quanto fosse de cantoria, até
do Daniel Cavalcanti com o seu “In riba
do grande hoté Boa Viagem a coisa é mermo que queijo”.
Ou Manuel Bentevi: “Paro todo
movimento do estado, só funciona o Recife se eu quiser”.
A gente se deliciava curtindo o poder de improvisação dos aedos e
rapsodos da hora, inclusive alguns até bem picantes e hilários.
Outro dia, lá estava eu telengotengo na maior violagem tresloucada e,
meu pai, logo percebeu que eu andava olvidando das funções ao vivo e das
leituras.
Foi.
Ele deu um puxavanque na viola que eu barulhava e sacudiu na caixa dos
meus peitos aquele Tratado de Versificação, do Bilac & Guimarães Passos,
com uma recomendação: Tome, aprenda direito!
Como eu misturava demais as coisas, deu-me depois, um catatau de
livros: o do Amorim Carvalho, o da Teoria do verso do Rogério Chociay, uma
antologia dos cantadores Francisco Linhares e Otacílio Batista; e outra de
Violeiros e cantadores, do Câmara Cascudo.
Agora sim, era para aprender de mesmo.
Tá.
E finquei pé enrolado com hemistíquios, anaspésticos, aliterações,
assonâncias, escansões.
Bem, a coisa parecia que ia, de fato.
Tanto é que pelos 12 ou 13 anos de idade, por aí, mais ou menos, entre
uns e outros versos aloprados, sapequei uns estúrdios estrofados robustos e,
entre eles, um que, à época, me deu maior empáfia e cujo título não poderia ser
mais desproposital: Fotogenia enfática de um mentecapto alógico.
Repara só o desatino.
Mais pavoneado fiquei porque essa caprichada poética foi, mais tarde, integralmente
publicado no jornalzinho do Grêmio Cultural Castro Alves, do Colégio Diocesano,
e, também, exposto pela professora Jessiva Sabino de Oliveira, no mural da
Biblioteca Municipal.
Taí, pense num cabra metido, hem!
A rebuscada toda virou mania e refletiu nas escrevinhações posteriores
e nas duas dúzias de músicas que fiz com o parceiro Fernandinho Mélo Filho, o
Bigode-bigodinho. As músicas eram dele e ótimas, graças ao talento do parceiro;
mas as letras, vôte!, era cada caprichada pseudoparnasiada que, ao serem
espremidas, só davam aranzéis – ô salada indigesta de versos adoidados.
E para encurtar a hestória: meus versos só serviam mesmo para mangação
e pilhérias na cara, pelos meus pariceiros; ou pelas costas depois de muita
corda, só esperando a merda que eu ia cometer.
Tinha que ter um freio: ou aprumasse cavoucando o talento, ou partisse
para outra.
Persistia e toda verborragia adolescente não resistiu à leitura de
Maiakovsky: “Poeta é quem cria regras poéticas!” E ele, que se considerava uma
Nuvem de Calças, dizia mais no seu Como fazer versos: “As regras não existem!”
Eita! Mas, como? Não entendia.
E ficou mais embaralhado ainda quando botei as vistas na Essência da
Poesia do Eliot: “A tarefa do poeta é levar a efeito uma revolução na
linguagem”.
Pronto. E agora?
Não adiantaram as leituras de estilística, dos manuais de prosódia e
califasia, dicionários de acordes, tomos poéticos, como os de Jean Cohen, Delas
& Filliolet, nem tratado de versificação que fosse: não levava jeito mesmo
– muito embora insistisse publicando uns livrinhos com meus experimentos
supostamente poéticos.
Por conta do desarrazoado, sempre me vi um poetastro, um poeta d’água
doce. Salvei-me por ser um bom leitor.
Vamos lá.
Pois bem.
A experiência de adaptar a peça teatral João sem Terra, de Hermilo, me fez incursionar de forma mais
aprofundada pela Literatura de Cordel – e eu já tinha publicado dois livros com
meus poemas adolescentes. Tive de rever tudo e recomeçar do zero. Não deu
certo, requeria pressa por causa da data de estreia do espetáculo e eu não
tinha essa perícia toda, tanto que incumbi Gilberto Melo, poeta dos bons lavado
pelos birinaites, a fazer a poesia com o desafio entre João Sem Terra e o Pai
da Mata. Giba tomou uma e saiu na hora! Ficou um primor e, não fosse isso, não
haveria um dos pontos mais altos do espetáculo, o que salvou a minha adaptação.
Até que depois encarei seriamente a reestudar a métrica e cometi,
depois de trocentos anos de estudo e pelejando com as pestanas na ponta dos
dedos, o cordel Tataritaritatá,
com a pretensão de fazer um martelo agalopado.
Foi.
De fato: escrevi um martelo agalopado.
Porém, como quase não tinha fôlego para tal, fechei com uma martelada,
porque o último e alguns outros versos ficaram com o pé quebrado. Coisa de
amador dos ruins mesmo.
Depois de publicado o cordel foi que corrigi e fechei as dez estrofes
com dez versos cada uma delas e dez sílabas em cada verso.
Uma prova e tanto. Ufa! Haja trabalhada.
Foi daí que passei a ministrar uma oficina de Literatura de Cordel,
abordando sobre a história e a origem da literatura popular, os tipos de
poesia, a métrica, entre outros assuntos.
Apreciador me mantenho até hoje, tendo já destacado grandes clássicos
do cordel nordestino no zineblog TTTTT e aplaudindo muito cordelista!
Quanto a cometê-los, uns ou outros, como o Cordel do Cantador e o
xoteado Desnorteio, assim na veneta.
E comecei uma outra martelada com meta agalopada, com o tema do combate
à violência contra a mulher. Elas merecem essa apologia e tratamentos de flor,
mas até agora só saiu uma estrofe. E olhe que já faz tempo que tenho futucado
na versejada, pelo jeito vai demorar mais um bocadinho.
Vamos nessa.
Veja o Cordel Tataritaritatá aqui.
O cordel do Cantador aqui.
Desnorteio aqui.
&
Cordel na Escola aqui, aqui & aqui.


