Saturday, July 05, 2014

APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA PARA VYGOTSKY


APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA – Ao abordar a temática da Aprendizagem e desenvolvimento intelectual na idade escolar, o pensador e psicólogo russo Lev Semenovitch Vygotsky (1896-1934), considera três categorias que envolvem a independência do processo de desenvolvimento e do processo de aprendizagem, havendo, pois, uma oposição entre elas e admitindo que a aprendizagem é um processo exterior ao desenvolvimento, em conformidade com o que defende Piaget; a de que a aprendizagem é desenvolvimento, havendo assim um paralelismo ou simultaneidade entre ambas; e a de conciliação entre ambas defendendo a coexistência entre processos independentes e coincidentes, tal qual o paralelismo da ideia conexa defendida por Koffka. Nesse sentido, Vygotsky tece considerações a respeito dessas três categorias, a partir de uma análise do conceito de disciplina formal de Herbart que caracteriza o conservadorismo na práxis educativa, partido para a teoria da área de desenvolvimento potencial articulada com o nível do desenvolvimento efetivo da criança que envolvem as funções psicointelectuais, defendendo a existência do auxilio adulto na área identificada como zona de desenvolvimento potencial.
Na análise da primeira categoria, Vygotsky entende que para ela a aprendizagem é um processo puramente exterior e paralelo ao processo de desenvolvimento, sem participar nem modificar, uma vez que a aprendizagem utiliza os resultados do desenvolvimento. Esta é a teoria de Piaget que estuda o desenvolvimento do pensamento da criança de forma completamente independente do processo de aprendizagem. Piaget alega tratar-se de uma questão de método ao defender que o curso do desenvolvimento precede sempre o da aprendizagem e que esta segue sempre o desenvolvimento. Nesse caso, a aprendizagem é uma superestrutura do desenvolvimento e essencialmente não existem intercâmbios entre os dois momentos.
Analisando a segunda categoria, Vygotsky observa a consideração de que a aprendizagem é desenvolvimento, considerando as leis do desenvolvimento como leis naturais que o ensino deve ter em conta, exatamente como a tecnologia dever ter presentes as leis da física, uma vez que o ensino não pode mudar essas leis, do mesmo modo que a tecnologia não pode mudar as leis gerais da natureza. Em vista disso, o desenvolvimento e a aprendizagem sobrepõem-se constantemente, como duas figuras geométricas perfeitamente iguais.
Ao analisar a terceira categoria que tenta conciliar os extremos dos dois primeiros pontos de vista, assinalando uma coexistência, Vygotsky entende que para essa categoria o processo de desenvolvimento está concebido como um processo independente do de aprendizagem, ao mesmo tempo que a aprendizagem é considerada coincidente com o desenvolvimento, implicando, pois, numa teoria dualista proposta por Koffka ao conciliar os dois pontos de vista anteriores que não se excluem, porque o desenvolvimento é produto da interação dos dois processos fundamentais e porque há uma ampliação da aprendizagem no desenvolvimento da criança.
Diante dessas três categorias, Vygotsky apresenta uma análise a partir do fato de que a aprendizagem da criança começa muito antes da aprendizagem escolar e que o curso dessa aprendizagem não é a continuação do desenvolvimento pré-escolar, uma vez que este último pode ser desviado, de determinada maneira, enquanto que a aprendizagem escolar toma uma direção contrária. Pela sua importância, o processo de aprendizagem que se produz antes que a criança entre na escola, difere de modo essencial do domínio de noções que se adquirem durante o ensino escolar, isso porque a aprendizagem e o desenvolvimento não entram em contato pela primeira vez na idade escolar, mas estão ligados entre si desde os primeiros dias de vida da criança. Defende, pois Vygotsky que há necessidade de se compreender a relação entre aprendizagem e desenvolvimento em gral, para, depois, analisar as características específicas dessa inter-relação na idade escolar. Para tanto, entende o autor que a aprendizagem deve ser coerente com o nível de desenvolvimento da criança e que ocorre na área do desenvolvimento potencial porque é fundamental e incontestável que existe uma relação entre determinado nível de desenvolvimento e a capacidade potencial de aprendizagem: o nível do desenvolvimento efetivo da criança que é o nível de desenvolvimento das funções psicointelectuais da criança, dependente, por consequência, da idade mental da criança. Assim, o estado do desenvolvimento mental da criança só pode ser determinado referindo-se pelo menos a dois níveis: o nível de desenvolvimento efetivo e a área de desenvolvimento potencial: o ensino deve orientar-se com base no desenvolvimento já produzido, na etapa já superada. Assim, a tarefa concreta da escola consiste em fazer todos os esforços para encaminhar a criança nessa direção para desenvolver o que lhe falta: o único bom ensino é o que se adiante ao desenvolvimento. Todas as funções psicointelectuais superiores aparecem duas vezes no decurso do desenvolvimento da criança: a primeira vez, nas atividade coletivas, nas atividades sociais, ou seja, como funções interpsíquicas; a segunda, nas atividades individuais, como propriedades internas do pensamento da criança, ou seja, como funções intrapsíquicas. É aí que a linguagem se origina como meio de comunicação entre a criança e as pessoas que a rodeiam. Como a linguagem interior e o pensamento nascem do complexo de inter-relações entre a criança e as pessoas que a rodeiam, assim essas inter-relações são também a origem dos processos volitivos da criança. Nesse ponto de vista, a aprendizagem não é em si desenvolvimento, mas uma correta organização da aprendizagem da criança conduz ao desenvolvimento mental. A aprendizagem é um momento intrinsecamente necessário e universal para que se desenvolvam na criança essas características humanas não-naturais, mas formadas historicamente. Em vista disso, a aprendizagem escolar orienta e estimula processos internos de desenvolvimento. A tarefa real de uma análise do processo educativo consiste em descobrir o aparecimento e o desaparecimento dessas linhas internas de desenvolvimento no mento em que se verificam durante a aprendizagem escolar. Esta hipótese pressupõe que o processo de desenvolvimento não coincide com o da aprendizagem, o processo de desenvolvimento segue o da aprendizagem que cria a área de desenvolvimento potencial. Por consequência, a aprendizagem e o desenvolvimento da criança ainda que diretamente ligados, nunca se produzem de modo simétrico e paralelo, uma vez que o desenvolvimento nunca acompanha nunca a aprendizagem escolar e que cada matéria escolar tem uma relação própria com o curso do desenvolvimento da criança, relação que não muda com a passagem da criança de uma etapa para outra.

REFERÊNCIA
VYGOTSKY, L. Aprendizagem e desenvolvimento intelectual na idade escolar. In: VYGOTSKY, L.; LURIA, A.; LEONTIEV, A. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone/EdUsp, 1988.

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